sexta-feira, 22 de abril de 2005

Bêbado e esquecido

José havia passado o dia inteiro bebendo. À noite, ainda no bar, o garçom lhe disse:
- Aí José, já vamos fechar. VÁ EMBORA!!!!!
- Estou indo... - disse José.
José se levanta e cai no chão, então ele pensa: "Vou me arrastando pra fora". Ao chegar na porta, tenta se levantar e cai novamente. Então ele pensa: "Vou me arrastando pra casa". Ao chegar em casa, perto de sua cama, tenta se levantar e cai mais uma vez, mas já em sua cama. No outro dia sua mulher briga com ele:
- José, seu pé-inchado!!! Voltou bêbado novamente!!!!
- Como você sabe mulher??? Você já estava dormindo quando cheguei em casa!!!! - disse José.
- É que o dono do bar ligou hoje cedo para avisar que você esqueceu sua cadeira-de-rodas lá outra vez!

Sou do tamanho do que vejo!

«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali' estão.

E já agora, consciente de saber ver, olhou vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro - do horizonte.

Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a-alma inteira, encosto' a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

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Trecho extraído de: PESSOA, Fernando. Livro do desassossego, composto por Bernardo Soares, São Paulo, Cia das Letras, 2003.

sábado, 16 de abril de 2005

Maneira de amar

Carlos Drummond de Andrade

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza. Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na ocasião devida.

O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho. Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido.” “Não”, respondeu, “estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É a minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava.”

Texto extraído de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A cor de cada um. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1998

sexta-feira, 8 de abril de 2005


Transformação Posted by Hello

sexta-feira, 1 de abril de 2005

O problema da adequação lingüística

Depois dos problemas ocorridos na Ásia, o Governo Brasileiro resolveu instalar um sismógrafo (medidor de abalos), para cobrir todo o país. O Centro Sísmico Nacional enviou às autoridades da cidade de Icó, no Ceará, uma mensagem que dizia:

"Possível movimento sísmico na zona. Muito perigoso, superior Richter 5. Epicentro a 3 km da cidade. Tomem medidas. Informem resultados com urgência".

Após uma semana, foi recebido no Centro Sísmico Nacional um telegrama que dizia:

"Aqui é da Polícia de Icó. Movimento sísmico totalmente desarticulado. O tal Ritchter tentou se evadir, mas foi abatido a tiros. Desativamos a zona. As putas tão todas presas. Não encontramos nenhum Epicentro; mas Epifânio, Epitácio, Epaminondas e outros três cabras suspeitos já tão detidos, aguardando as ordens. Achamos também um tal de Epílogo, mas foi no finzinho de um livro, prendemos o dono do livro. Não respondemos antes porque houve um terremoto da peste aqui, num ficô nada em pé".
Assinado: Delegado de polícia.

Annabel Lee

Annabel Lee
Edgar Allan Poe

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

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Tradução: Fernando Pessoa