domingo, 22 de maio de 2005

Livro das Perguntas

Pablo Neruda

Tem coisa mais boba na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Que vim fazer neste planeta?
A quem dirijo esta pergunta?

E que importância tenho eu
no tribunal do esquecimento?

Não era verdade que Deus
vivia no mundo da lua?

Minha poesia desgarrada
abr'olhos com estes olhos meus?

Por que me picam as pulgas e os
sargentos da literatura?

Que dirão da minha poesia
os que não tocaram meu sangue?

Posso perguntar ao meu livro
se eu mesmo o escrevi? Desde quando?

Por que nas épocas obscuras
se escreve com uma tinta extinta?

E por que detesto as cidades
com cheiro de mulher e urina?

Quem devorou rente aos meus olhos
um tubarão cheio de pústulas?

Por que andam as ondas me indagando
sobre as mesmíssimas perguntas?

Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?

Das tais virtudes que esqueci
dá pra fazer um terno novo?

Onde está o menino que fui:
anda comigo ou evaporou-se?

Sabe que nunca fui com ele
nem ele comigo tampouco?

Por que estivemos tanto tempo
crescendo para essa ruptura?

Quando minha infância se foi
por que nós dois não fomos junto?

Ainda ontem disse aos meus olhos:
quando de novo nos veremos?

Não é melhor nunca que tarde
dentro de listões amarelos?

Em que janela me quedei
em busca do tempo, se pulcro?

Ou o que diviso destes ermos
ainda não passa de futuro?

Que me esperava em Ilha Negra:
verdades verdes? compostura?

Se morri e não me dei conta
morto, a'hora, a quem me pergunto?

Quem me mandou desvencilhar-me
das portas do meu amor-próprio?

É verdade que um condor negro
sobrevoa minha pátria noite?

Que há de pesar mais na cintura:
padecimentos? memórias?

Que deu em mim de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?

Por que me movo sem querer?
Por que estou sempre desinquieto?

E se minh'alma desabou
por que meu esqueleto prossegue?

Por que vou girando sem rodas
e voando sem asas nem penas?

Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?

E que bandeira tremulou
no espaço em que não me esqueceram?

Pois não foi onde me perderam
que eu me dei, enfim, por achado?

Esse onde onde termina o espaço
se chama de morte ou infinito?

Por que voltei à indiferença
do maroceano desmedido?

Achas que o luto te antecipa
à bandeira do teu destino?

Se caí no laço do mar
por que fechei os meus caminhos?

Que significa persistir
no beco da morte-sem-saída?

E no mar do não-passa-nada
mortalha faz algum sentido?

Por que trabalham sal e açúcar
construindo-se uma torre branca?

Onde fica o umbigo do mar?
Por que até ali não chegam as ondas?

Foi das costas do mar que eu vim:
para onde vou quando me atalha?

Não sentes também o perigo
na gargalhada do maralto?

Onde terminará o arco-íris:
dentro da alma ou no horizonte?

Vejo de novo o mar ab ovo:
o mar me viu ou botou banca?

Não choras rodeado de risos
- só - com as garrafas do vazio?

Quanto media o polvo negro
que obscureceu a paz do dia?

Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?

Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?

E não achas que a morte vinga
dentro do sol de uma cereja?

Ou que em perigosas substâncias
do não ser, a morte lateja?

Devo escolher esta manhã
entre o céu e o mar, tudo ou nada?

Quem sabe lá de onde é que vem
a morte: de cima ou de baixo?

A morte não seria enfim
uma cozinha interminável?

Ou não seria a vida um peixe
preparado para ser pássaro?

O retrato preto denunciador

EAP & MLO

Dedicado à memória de Edgar Allan Poe*

Não espero nem peço que se dê crédito à história meramente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas, considerando o modo como dirijo, amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários cínicos, uma série de simples acontecimentos domésticos, que devido a suas conseqüências, me aterrorizaram, torturaram e instruíram.

Tudo começou quando, após sair totalmente desorientado de mais uma aula de Renascimento Português, fui abordado pela senhorita Rebeca. Ela retirou um canudo de sua bolsa, me entregou e disse que era um presente. Tratava-se de uma foto de um dos meus ídolos, o escritor estadunidense Edgar Allan Poe. No entanto, não tentarei esclarecê-los, mas no momento em que olhei para o retrato, em mim, quase não se produziu outra coisa senão horror. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza esse sentimento a algo comum – uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Mas o fato é que desde que recebi aquela foto, a ternura de meu coração que era tão evidente, e que me tornava alvo dos gracejos de meus camaradas, começou a desvanecer. Enrubesço ao confessá-lo, mas não só o meu caráter como o meu temperamento, sofreram, devido à presença daquela foto, uma modificação radical para pior.

Tornava-me, a cada hora, mais taciturno, mais irritadiço, mais cínico e mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me aos meus amigos e familiares. No fim, cheguei mesmo a tratá-los com indiferença. Meus amigos, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto à foto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de destruí-la, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os colegas de trabalho, o cobrador do ônibus e mesmo o porteiro do prédio, quando, por acaso cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim – que outro mal pode se comparar ao consumo prolongado e contínuo de Fanta Laranja? – e, no fim, até a foto, que começava agora a amarelar na parede, e que por conseguinte, se tomara algo difícil de se encarar, começou a refletir os efeitos de meu mau humor.

Numa noite, ao voltar para casa, muito embriagado após mergulhar minhas magoas em três doses de Fanta Laranja, numa de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que a foto evitava a minha presença. Apanhei-a, e ao encará-la, notei que ela parecia assustada ante a minha violência. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pelo suco industrializado de laranja produzido pela Coca-cola, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Apanhei na escrivaninha uma tesoura, arranquei a foto da moldura e, friamente, recortei um dos olhos de Edgar Allan Poe! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão – dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no consumo de Fanta Laranja a lembrança do que acontecera.

Entrementes, recoloquei a foto na parede, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas, ao menos, a mim, não parecia mais que Poe sofria qualquer dor. Eu andava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à aproximação do local em que se encontrava o retrato. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos secundários - pois o cinismo e o sarcasmo ainda são os primários –, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final.

O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira à imagem do pobre poeta. Pela manhã, a sangue frio, retirei o retrato da parede, e por mais infantil que possa parecer, pintei-lhe os lábios e desenhei-lhe "chifrinhos". Observei por alguns minutos e, logo, após saquei de meu bolso um isqueiro e ateei fogo à imagem de Poe. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Queimei-o porque sabia que o respeitara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Queimei-o porque sabia que estava cometendo um pecado – um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mãe, minha sobrinha e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "Putz grila!", "Caráca! Véi!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura do autor de "O Corvo" como que num outdoor gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma fogueira embaixo da imagem de Poe.

Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O retrato de Poe, lembrei-me, fora queimado numa churrasqueira que fica no quintal nos fundos da casa. A queda das outras paredes e a cal do muro, juntamente com as chamas e o amoníaco desprendido das cinzas da foto, produziram a imagem tal qual eu agora a via. Ou talvez alguém tenha retirado as cinzas do retrato da churrasqueira e lançando-as, através de uma janela aberta, o que fez com que a imagem do retrato fosse transferida para a parede do meu quarto...

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante dias, não pude livrar-me do fantasma de Poe e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do retrato e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava - Feira da Ceilândia, Cebinho, Café da Rua 08 ou na Banca Brasiliana da RodoStation do Plano Piloto - outra foto do poeta que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes engradados de Fanta, Coca-cola, Guaraná Antártica ou sei lá o quê – não concebo bem que refrigerante pudesse ser – que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto dos engradados, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo.

Levantei-me e o encarei como horror. Era um retrato emoldurado de Poe – tão grande quanto o que eu havia queimado – e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele: pelo semblante do autor, tive a nítida impressão que este parecia me encarar e me julgar com os olhos! Penso que era o olhar dele! Sim, era isso! Seus olhos pareciam com os de um abutre... olhos pálidos, como os de quem sofre de catarata. Meu sangue se enregelava ao sentir que seu olhar caía sobre mim; e assim, pouco a pouco, bem lentamente, fui-me decidindo a tirar o quadro daquele lugar, destruí-lo e assim libertar-me daqueles olhos para sempre.

Ora, aí é que estava o problema. A esta altura, deveis imaginar que sou louco. Mas os loucos nada sabem. Deveríeis, porém, ter-me visto. Deveríeis ter visto como procedi cautelosamente, com que prudência, com que previsão, com que dissimulação lancei mão à obra!

Fui mais cauteloso do que de hábito. O ponteiro dos minutos de um relógio mover-se-ia mais rapidamente do que meus dedos. Jamais, antes daquela noite, sentira eu tanto a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que ali estava eu, pouco a pouco, na iminência de me livrar daquele olhar... Ri com gosto, entre dentes... O quadro estava num local escuro como piche, espesso de sombra. E eu continuei a avançar, cada vez mais, cada vez mais. Fiquei completamente silencioso e nada disse.

Ao aproximar-me, um feixe de luz iluminou uma parte do quadro e, novamente, pude ver os olhos do poeta. Eles estavam abertos, plenamente abertos. E, ao contemplá-los, minha fúria cresceu. Vi-o, com perfeita clareza; Poe me fitava com olhar de reprovação! Seus olhos tinham um aspecto desbotado, com uma horrível película a cobri-los, o que me enregelava até a medula dos ossos. Mas não podia ver nada mais da face, pois a fresta dirigira a luz como por instinto, sobre o maldito lugar.

De súbito, chegou a meus ouvidos um som baixo, duas palavras que não conseguia entender, algo como o tique-taque de um relógio, quando abafado com algodão, ou o sistema de som do Cine Márcia, quando exibindo um filme de ação.. Eu não sabia bem que som era e, acreditara tratar-se do bater do meu coração. Ele me aumentava a fúria, como o bater um tambor estimula a coragem do soldado.

Ainda aí, porém, refreei-me e fiquei quieto. Tentei manter-me tão focalizado em meu objetivo quanto a réstia de luz sobre os olhos do poeta. Entretanto, o infernal som aumentava. A cada instante ficava mais alto, mais rápido! Cada vez mais alto, repito, a cada momento! Prestai-me bem atenção? Disse-vos que houvera me tornado mais irritadiço do que eu um dia fora. E então, àquela hora morta da noite, tão estranho ruído excitou em mim um terror incontrolável. Contudo, por alguns minutos mais, dominei-me e fiquei quieto. Mas o barulho era cada vez mais alto.

E, depois, nova angústia me aferrou: o ruído poderia ser ouvido pelo dono do bar! A hora de me livrar daquele retrato maldito tinha chegado! Com reflexos semelhantes aos de um ninja, rapidamente retirei a foto da moldura e a embolei, colocando-a em meu bolso. Então, voltei rapidamente para minha casa – que agora estava em adiantada fase de reconstrução. Arranquei três cerâmicas do soalho do quarto e coloquei a foto entre os vãos. Novamente, ateei-lhe fogo e depois recoloquei as cerâmicas, com tamanha habilidade e perfeição, que nenhum olhar humano, nem mesmo o dele, poderia distinguir qualquer coisa suspeita.

Nada havia a lavar, nem mancha de espécie alguma. Fora demasiado prudente no evitá-las. Uma demão de cera tinha recolhido tudo... Ah! Ah! Ah! Terminadas todas essas tarefas, eram quatro horas. Mas ainda estava escuro, como se fosse meia-noite. Como tenho insônia, para mim era normal dormir tão tarde. Quando o sino do relógio soou a hora, bateram a porta da rua. Desci para abri-la, de coração ligeiro,... pois que tinha eu agora a temer?

Entraram três homens que se apresentaram, com perfeita mansidão, como estudantes de literatura. Fora ouvido de um vizinho, que eu tinha em meu poder um retrato de Edgar Allan Poe. Despertara-se a suspeita de eu houvera cometido um crime contra a sua memória. Tinha-se formulado uma denúncia e eles, estudantes de Letras, tinham sido mandados para investigar.

Sorri... pois, que tinha eu a temer? Dei as boas vindas aos cavalheiros. O retrato, disse eu, não existia, só em sonhos. Poe, relatei, nunca gostara de tirar fotos, portanto, como poderia eu ter alguma foto sua? Levei meus visitantes a percorrer toda a casa. Pedi que dessem busca... completa. Conduzi-os, afinal, ao quarto. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto e mostrei desejos de que eles ficassem ali, para descansar de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na desenfreada audácia do meu perfeito triunfo, colocava minha própria cadeira, precisamente sobre o lugar onde repousavam as cinzas da vítima.

Os alunos ficaram satisfeitos. Minhas maneiras os haviam convencido. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia cordialmente, conversavam coisas familiares. Mas, dentro em pouco, senti que ia empalidecendo e desejei que eles se retirassem. Minha cabeça me doía e parecia-me ouvir zumbidos nos ouvidos; eles, porém, continuavam sentados e continuavam a conversar. O zumbido tornou-se mais distinto. Continuou e tornou-se ainda mais distinto: eu falava com mais desenfreio, para dominar a sensação: ela, porém, continuava a aumentava sua perceptibilidade, até que, afinal, descobri que o barulho não era dentro dos meus ouvidos.

É claro que então minha palidez aumentou excessivamente. Mas eu falava ainda mais fluentemente e num tom de voz muito elevada. Não obstante, o som se avolumava... E que podia fazer? Era um som grave, monótono, rápido... muito semelhante ao do sistema de som do Cine Márcia, quando exibindo um filme de ação. Eu respirava com dificuldade... E no entanto, os estudantes não o ouviram. Falei mais depressa ainda, com mais veemência. Mas o som aumentava constantemente. Levantei-me e fiz perguntas a respeito de ninharias, num tom bastante elevado, e com violenta gesticulação, mas o som constantemente aumentava.

Por que não se iam embora? Andava pelo quarto acima e abaixo, com largas e pesadas passadas, como se excitado até a fúria pela permanência dos estudantes... mas o som aumentava constante. Oh! Deus! Que poderia eu fazer? Espumei... enraiveci-me... praguejei! Fiz girar a cadeira, sobre a qual estivera sentado, e arrastei-a sobre as cerâmicas, mas o barulho se elevava acima de tudo e continuamente aumentava. Tornou-se então mais alto... mais alto... mais alto!

E os homens continuavam ainda a passear, satisfeitos e sorriam. Seria possível que eles não ouvissem? Deus Todo Poderoso!... não, não! Eles suspeitavam!.. Eles sabiam!... Estavam zombando do meu horror!... Isto pensava eu e ainda penso. Outra coisa qualquer, porém, era melhor que essa agonia! Qualquer coisa era mais tolerável que essa irrisão! Não podia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Sentia que devia gritar ou morrer!... E agora... de novo! Escutai!

Mais alto!
Mais alto!
Mais alto!
Mais alto!
Mais alto...

Tudo bem! - trovejei – Vocês não precisam mais fingir que não escutam! Confesso o crime!... Arranquem as cerâmicas!.. aqui, aqui! ... ouçam o desgraçado dizer: “Nunca mais, nunca mais...”

FIM

Marcos Lima


*Que, depois dessa, deve estar se contorcendo no túmulo...

sábado, 14 de maio de 2005

Salim e sua empregada

Salim era milionário e não tinha se casado para não gastar dinheiro. Seu único luxo era sua empregada, Jacira, uma morena lindíssima. Todo dia, durante anos, quando Salim chegava em casa, Jacira servia o jantar e ia tomar banho.

Até que um dia, Salim estava jantando e ficou ouvindo o barulho da água, pensando na Jacira tomando banho.

Mastigava a comida e pensava na Jacira tomando banho...
Mastigava a comida e pensava na Jacira tomando banho...
Mastigava a comida e pensava na Jacira tomando banho...

Até que se levantou da mesa e foi até o banheiro. Bateu na porta:

- Jacira, você está tomando banho?
- Estou, Seu Salim.
- Jacira, abre a porta pra Salim.
- Mas, Seu Salim... estou nua...
- Jacira, abre a porta pra Salim.

A Jacira não resistiu muito e acabou por abrir a porta. Nesse momento, Salim entra no banheiro, vê Jacira nua e pergunta:

- Jacira, quer foder com Salim?
- Mas seu Salim, eu não sei...
- Jacira, quer foder com Salim?
- Sim, quero sim, seu Salim.

Então Salim pulou em cima dela.... botou a mão no registro do chuveiro e...

- Jacira não vai foder Salim não !!! -
fechando o registro
- Chega de gastar o água... vai foder outro!!!

domingo, 1 de maio de 2005

A incapacidade de ser verdadeiro

Carlos Drummond de Andrade

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.

Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

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Texto extraído de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A cor de cada um. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1998.