segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

sábado, 16 de dezembro de 2006

O Tempo Reduz Tudo a Nada

Arthur Schopenhauer

O tempo é a forma graças à qual a vanidade das coisas aparece como a sua instabilidade, que reduz a nada todas as nossas satisfações e todas as nossas alegrias, enquanto nos perguntamos com surpresa para onde foram. Esse próprio nada é portanto o único elemento objectivo do tempo, ou seja, o que lhe responde na essência íntima das coisas, e assim a substância da qual ele é a expressão.

Arthur Schopenhauer, in 'O Mundo como Vontade e Representação'.

sábado, 25 de novembro de 2006

Somos morte.

Bernardo Soares

Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos. Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias. Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga. A verdade nunca, a paragem nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz, mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!

Bernardo Soares (Fernando Pessoa) In: Livro do desassossego, fragmento nº 178.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

A soma e substância de toda a filosofia

Casa-te, tu vais te arrepender; não te cases, tu também vai te arrepender; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.

Søren Kierkegaard (Victor Eremita), in 'Aut/Aut' (Diapsalmata).

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

sábado, 28 de outubro de 2006

I'm your dentist


Steve Martin, no filme "A pequena loja dos horrores" (1986)

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

sábado, 7 de outubro de 2006

I'm in Love

Wilson Pickett & the Midnight Movers

domingo, 1 de outubro de 2006

A alienação política e a direita brasileira

Um sentimento de nojo e indignação tem se apossado de mim ultimamente. Peço desculpas pelo desabafo, mas diante dos acontecimentos dos últimos dias, sinto a necessidade de colocar por escrito uma reflexão sobre as eleições, sobre a alienação política e o caminho que, acredito, seja o que queremos seguir.

Tenho ouvido muita gente dizer que vai votar nulo ou em branco porque se desiludiu com os rumos que o governo do PT tomou. Para essas pessoas, que se sentiram enganadas, abster-se do voto é uma atitude de revolta que simboliza a desforra pela “traição” cometida pelo PT. Dessa forma, o ato de tornar-se alienado constitui uma atitude de se desvencilhar, de se manter afastado, da sujeira e da corrupção tão alardeadas pela mídia.

No entanto, ser alienado político é observar a sociedade apenas superficialmente. É não ter o devido cuidado de estudá-la, de saber de onde se partiu ou do que foi feito para se chegar aonde ela chegou e, com esse conhecimento adquirido pela experiência, questionar e apontar caminhos que possam levar a um melhor progresso social, para que, dessa forma, se tenha uma sociedade mais igualitária. Para não ser alienado político é preciso descobrir a cada momento histórico o grupo político que tenha melhores condições de levar adiante o progresso social da humanidade.

Após a década de 60, quando nossas possibilidades foram interrompidas, o governo Lula foi o primeiro passo que demos em direção a um Brasil novo. É verdade que ainda estamos mergulhados no mundo neoliberal e na ideologia de mercado, mas é igualmente verdade que o governo que Lula está fazendo é superior ao do que o sociólogo fez, embora as variáveis que realmente interessem (desenvolvimento social, redução da pobreza etc.) sejam irrelevantes para a mídia e, principalmente, para a direita.

O que interessa para a direita, ao contrário do que ocorre com a esquerda, é tudo aquilo que sua classe possa aproveitar, ainda que seja prejudicial ao povo... O diabo é que, em sua propaganda maniqueísta, mente e manipula discaradamente a esse povo, seja tentando criar um um clima de desligitimação do governo por meio de "denúncias" da corrupção ou seja por meio da promoção de debates pseudo-democráticos.

O final infeliz da história é em dois atos: no primeiro, o povo tem seus votos tomados e, no segundo, lhe é dado as costas.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

O tédio é a raiz de todo o mal

Søren Kierkegaard

Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a idéia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta idéia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante.

KIERKEGAARD, Søren Aabye, in "Aut, aut"

domingo, 10 de setembro de 2006

That's how strong my love is

The Rolling Stones (RSG 1965)

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

O Mundo é a minha representação

Arthur Schopenhauer

O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra; mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.

Se existe uma verdade que se possa afirmar à priori é bem esta, pois ela exprime o modo de toda a experiência possível e imaginável, conceito muito mais geral mesmo que os de tempo, espaço e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princípio de razão, apenas é aplicável a uma ordem determinada de representações; a distinção entre sujeito e objeto é, pelo contrário, o modo comum a todas, o único sob o qual se pode conceber uma qualquer representação, abstrata ou intuitiva, racional ou empírica. Nenhuma verdade é pois, mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe, numa palavra, é pura representação.

SCHOPENHAUER, Arthur. In 'O Mundo como Vontade e Representação'.

domingo, 3 de setembro de 2006

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Futuro

Ricardo Reis

Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

A raposa e o político

Certa vez uma raposa se aproximava de um galinheiro para roubar como de costume, quando foi abordada por um político que a observava sem que ela soubesse. O homem se aproximou da raposa e disse:

– Venho te observando todos os dias e vi que você sempre rouba apenas uma galinha... tenho uma proposta para te fazer baseado em minha experiência e parceria com outras raposas. O esquema é o seguinte: a gente rouba todas as galinhas desse galinheiro e depois fazemos isso nos outros galinheiros das fazendas vizinhas. Aí, a gente divide o fruto do roubo em partes justas, tipo hoje você rouba para mim e amanhã eu roubo para você. Não tem erro, nós dois lucramos e é totalmente seguro.

A raposa ficou impressionada com a proposta do político e a seguiu à risca. Roubou todas as galinhas. Não deixou nenhuma. Passou tudo ao político e combinaram de se encontrar na fazenda vizinha no dia seguinte. No outro dia, o político não estava lá. O galinheiro já estava vazio e o dono havia armado uma tocaia para pegar o ladrão.

A raposa foi abatida com três tiros na cabeça.

Moral da historia: mais vale roubar uma galinha por dia que confiar na palavra de um político.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

sábado, 22 de julho de 2006

Voar

Uma das vantagens de estudar uma língua estrangeira é poder entender aquilo que antigamente você só gostava pelo som. Exemplo disso são as músicas estrangeiras. Sempre gostei de músicas italianas, principalmente as dos anos sessenta, mas gostava apenas pelo som e por entender (ou inferir) algumas palavras que tem uma sonoridade parecida com as do português. Mas havia algumas que não tinham nada a ver com o português e isso me agoniava bastante. Uma delas é "Volare", veja só a letra:

Volare
Luciano Pavarotti
Composição: Domenico Mondugno

Penso che un sogno così non ritorni mai più
Mi dipingevo le mani e la faccia di blu
Poi d'improvviso venivo dal vento rapito
E incominciavo a volare nel cielo infinito

Volare, oh, oh!
Cantare, oh, oh, oh, oh!
Nel blu, dipinto di blu
Felice di stare lassù

E volavo, volavo felice più in alto del sole ed ancora più su
Mentre il mondo piano piano spariva lontano laggiù
Una musica dolce suonava soltanto per me

Volare, oh, oh!
Cantare, oh, oh, oh, oh!
Nel blu, dipinto di blu
Felice di stare lassù
Nel biu, dipinto di blu
Felice di stare lassù


Agora que consigo entender acho que gosto ainda mais dela. Aí vai a tradução:

Voar
Composição: Domenico Mondugno

Penso que um sonho assim não retornará nunca mais
Eu pintava minhas mãos e o rosto de azul
Depois por improviso era seqüestrado pelo vento
E começava a voar no céu infinito

Voar, oh, oh!
Cantar, oh, oh, oh, oh!
No azul, pintado de azul
Feliz de estar lá em cima

E voava, voava mais feliz no alto do sol e ainda mais acima
Enquanto o mundo plano, plano desaparecia distante lá embaixo
Uma música doce tocava apenas para mim

Voar, oh, oh!
Cantar, oh, oh, oh, oh!
No azul, pintado de azul
Feliz de estar lá em cima


Até a próxima!

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Almas

Somos apenas almas.
Vagamos confusos em meio
a tênues feixes
de luzes serenas.
Com passos apressados,
desviamos da vigília permanente
de olhares perseguidores.
Bailamos entre sombras
e clarões difusos
para adormercemos envoltos
pelos lençóis de fumaça da perdição.
Rimos da busca de uma felicidade fugidia
ou mentira oculta.
E quando não recebemos respostas
às perguntas que endereçamos ao céu,
sabemos que é porque somos almas,
espíritos invisíveis
à mesquinharia humana.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Travelling riverside blues

Led Zeppelin



Em homenagem ao Dia do rock, um clipe da maior banda de rock de todos os tempos.
Saudações aos deuses do metal!

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Roadhouse blues

The Doors


Há 41 anos, formava-se, em Los Angeles, Estados Unidos, uma das mais polêmicas e talentosas bandas de rock'n'roll da história, o The Doors. E, há exatos 35 anos, faleceu seu vocalista e líder Jim Morrison.

A morte, ocorrida em um hotel parisiense, sempre foi cercada de suspense. Alguns fãs mais exaltados acham que Morrison, como Elvis Presley, não morreu, que é tudo boato. Os companheiros de banda não acreditam, em declarações dadas na mídia, que o corpo do músico esteja em Paris. Enfim, tudo muito nebuloso.

Mas o que impressiona de fato, é a magia, o encanto que a imagem do rebelde Morrison (morto aos 27 anos) ainda causa em milhares de pessoas. O mito permanece vivo.

Récem formados em cinema, Ray Manzarek (tecladista) e Morrison se conheceram e resolveram formar uma banda. Adotam o nome de The Doors através de uma obra do poeta William Blake. Em pouco tempo John Densmore (baterista) e Robby Krieger (guitarrista) se juntam ao Doors.

Em 1967, sai a primeira e talvez a melhor obra da banda, o álbum homônimo, que contém as épicas canções 'Break on Through' e 'Light My Fire'.

A partir daí, o sucesso do grupo foi aumentando abruptamente e com ele a loucura da banda. Morrison, irritado com o assédio ou sem encontrar um meio mais confortável para lidar com o sucesso, começa a se apresentar de modo enérgico, estranho, no palco. Considerado símbolo sexual na época, o vocalista adotou performances sensuais, obcenas muitas vezes, criando um figura pública controversa.

Drogas e álcool, que juntamente com o sexo compõem a famosa tríade com o rock, estavam presentes no dia a dia do Doors. Morrison, já um tanto transtornado com sua nova vida, começou (ou ao menos tentou) se afastar um pouco dos holofotes da mídia e do resto da banda, com quem vivia em conflitos constantes. Até que no dia 3 de julho de 1971, Jim foi encontrado morto, devido a um ataque cardíaco, na banheira do hotel em que se hospedava em Paris, tendo sua morte anunciada dias depois em meia a muita confusão e especulações.

Permanece até hoje a imagem do vocalista rebelde, que ignorou as proibições do programa The Ed Sullivan Show, do bêbado que exibiu o pênis em um show nos Estados Unidos e que protagonizou tantas outras insanidades.

Seu túmulo, em Paris, é um dos locais mais visitados da Europa. Diariamente passam cerca de 300 pessoas pelo local. Fotos, velas, cartas e os mais diversos objetos são deixados juntos a lápide do músico. Algumas pessoas fazem pequenos ritos as escondidas no cemitério e até mantém relações sexuais perto do túmulo.

Se vivo, Jim Morrison completaria em dezembro 68 anos. Não se pode afirmar o que aconteceria com o Doors se o seu vocalista não tivesse morrido em 1971. A única certeza é que sua morte foi criado um mito que perdurará por muito tempo.

sábado, 1 de julho de 2006

Weapon of Choice

Fatboy Slim


O vídeoclip "Weapon of choice", baseado na música de mesmo nome do Fatboy Slim, foi dirigido por Spike Jonze, o mesmo diretor dos filmes "Quero ser John Malkovich" e "Adaptação". A música faz parte do disco "Halfway between the gutter and the stars" ("Metade do caminho entre a sarjeta e as estrelas"), de 2000. No vídeo, o ator Christoper Walken interpreta um homem que aproveita a ausência de pessoas no local para dançar pelos salões de um luxuoso hotel. Walken também ajudou a coreografar a dança, que inclui uma cena em que ele mergulha do alto de uma sacada para voar ao redor do salão.

domingo, 25 de junho de 2006

Sonhos

Sempre fui meio grilado com meus sonhos – provavelmente por não ter tido muitos. Lembro-me perfeitamente de alguns pesadelos que tive e que me perturbaram bastante. Mas, mais estranho do que acordar assustado com algum pesadelo, é a impressão estranha de acordar "apaixonado" por um devaneio do inconsciente, por uma pessoa que jamais existiu, senão em minha mente, e ficar completamente confuso com essa sensação.

Tudo funciona assim: você acorda atônico pela manhã e não consegue aceitar que sua mente tenha sido capaz de criar tudo aquilo. Você precisa comprovar que tudo não passa realmente de um sonho; quer tentar encontrar ao menos uma evidência que prove que seu inconsciente não teria capacidade de te pregar tamanha peça. Mais ou menos como aquele personagem do filme “Em algum lugar do passado”, você começa a ficar obcecado com a idéia de reencontrar aquela pessoa do seu sonho, ainda meio aturdido pela dúvida de estar sonhando ou desperto.

É parecido com a sensação que se tem quando se tem sonhos desta espécie com alguém que se viu uma única vez... Certa ocasião, na escola, quando eu era ainda mais estranho do que sou hoje e tinha por volta de 13 anos, lembro-me de ter passado todo o recreio procurando uma garota mais velha do que eu, ainda sonhando acordado o sonho que tinha tido na noite passada com alguém que havia visto apenas de relance. Sempre fui tímido e com certeza não haveria nada a ser feito além de encontrá-la, mas eu queria revê-la e sentir uma pontinha de nostalgia do que ela nem sonhava... Não sonhara... E nem sonharia... Ou será que na mesma noite teria ela sonhado com aquele menino e talvez estivesse procurando-o também com o desejo secreto de apenas revê-lo?

Não estava.

Eu a vi entre várias amigas. Estava exatamente como no sonho: o mesmo cabelo curto, o rosto cheio de espinhas, as sobrancelhas fortes que realçavam o brilho dos olhos... É estranho quando você se depara com alguém com quem teve um relacionamento que foi tão intenso, e que no entanto só existiu em sua mente. Talvez seja a mesma sensação de um fã que passa anos sonhando com a oportunidade de ficar cara a cara com seu ídolo e de repente consegue realizar essa façanha. Não sei. Não consigo explicar com palavras, mas lembro-me de ter ficado parado ali por algum tempo, olhando e lembrando. Eu a amei baixinho, num segredo velado, típico desses sonhos que se sonha sozinho... Sonho tão real que venceu até o desafio do tempo e da memória, e que me faz curiosamente lembrar dela, quando eu mesmo já esqueci de tantas pessoas que amei ao longo tempo.

Acho que estou ficando velho.

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Morte, o sono dos justos

Hoje é um daqueles dias em que sinto nojo de ser humano. Hoje é um daqueles dias em que tenho vontade de apagar toda e qualquer marca, qualquer evidência, qualquer sinal, de que faço parte dessa espécie mesquinha que domina todos os outros animais que vivem nesse planeta. Hoje é um daqueles dias em que eu gostaria de brincar de Deus, só para poder punir a humanidade (e eu mesmo me incluo nesse grupo miserável) por tudo de ruim que fazemos a nós mesmos.

O fato é que me recuso a aceitar a idéia de que nos dias de hoje pessoas – sim, pessoas assim como eu e como você que lê este texto – morram de fome. Não consigo aceitar a idéia de que uma mãe, que tira o sustento da coleta informal do lixo e, que recebe por isso, mais ou menos, R$ 300,00 mensais, viva com seus seis filhos num barraco de 2 metros quadrados, e tenha que pagar R$ 100,00, por mês, pelo aluguel dessa moradia. Não consigo aceitar a idéia de que seis crianças tenham que comer fubá misturado com água e restos de lixo para poder sobreviver. Não aceito e jamais aceitarei a notícia de que uma menina de um ano e seis meses tenha morrido de fome por não agüentar uma dieta de vários meses à base de fubá com água.

Ela nasceu perfeita e pobre.
Sem nenhum problema físico ou congênito.
Nenhuma doença, só era pobre.
Passou fome por um ano e três meses, sua vida inteira.
Toda a sua existência se resumiu à subalimentação e à agonia da sensação que traduz o desejo de comer.
Quando a levaram ao hospital, descobriram que seu estômago estava atrofiado.
Morreu de fome.

Puta que pariu.
Como é que pode? Como é que alguém ainda pode morrer de fome? Fome não é aquele troço besta que a gente sente de vez em quando, aí vai até a cozinha, pega qualquer coisa, come e passa?

Que raio mundo é esse em que uma criança de um ano e três meses morre de fome e ninguém faz nada? Que mundo é esse em que ninguém questiona o fato de haver pessoas que desfilem por aí em carros que custam U$ 300.000,00, enquanto uma criança de um ano e seis meses morre de fome porque os R$ 300,00 que sua mãe recebe por mês têm que ser divididos entre sete pessoas e o aluguel? Que mundo é esse em que a reificação das relações pessoais atingiu um estágio tão desenvolvido que a morte de alguém, por não ter o que comer, não é suficiente para nos sensibilizar a questionar o porquê das desigualdades sociais?

Tomara que caia um meteoro e destrua essa merda de planeta.

domingo, 4 de junho de 2006

Dancem macacos, dancem



Macacos que se acham mais espertos que os macacos, fazem vídeos criticando outros macacos, esquecendo-se que, na verdade, não passam de "macacos".

O que é uma grande ofensa aos símios...

domingo, 28 de maio de 2006

Conhecer-se é errar

Fernando Pessoa

O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei». O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.

Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse «Conhece-te» propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande, que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registo consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica das sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.

Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isto que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.

Bernardo Guimarães, in 'O Livro do Desassossego'.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Existencialismo I

ou O estrago causado ao pensamento em decorrência da falta de Fanta Laranja

A abstinência de Fanta Laranja no meu sistema nervoso tem feito um estrago grande em minha sanidade*. Por isso, e talvez como forma de catarse, resolvi registrar mais uma vez meus devaneios aqui. Tenho pensado muito a respeito do existencialismo, principalmente sobre a questão da responsabilidade pelas escolhas e a sua relação com o que definimos por 'destino'.

Acho que estamos perdendo as virtudes de vivermos apaixonadamente; de assumirmos a responsabilidade por quem somos, de tentarmos realizar algo e nos sentirmos bem em relação à vida. O existencialismo é, às vezes, visto como uma filosofia do desespero, mas eu penso que é o contrário. O que ele nos ensina não é que deve existir um sentimento de angústia pela vida, mas sim que devemos encará-la como se ela fosse uma obra aberta, pronta para ser criada e, se preciso, redefinida.

De acordo com Sartre, cada escolha carrega consigo uma responsabilidade. Se escolho ficar em casa dormindo ao invés de ir trabalhar, falar alguma coisa ou escrever nesse blog, tenho que ter consciência de que qualquer conseqüência desses atos terá sido resultado de minha própria escolha. E ao colocar cada escolha em ação provoco mudanças no mundo que não podem ser desfeitas. Não posso, segundo o existencialismo, atribuir a responsabilidade por estes atos a nenhuma força externa, ao destino ou a Deus. A essência da responsabilidade segundo os existencialistas é que eu, por minha vontade e escolha ajo no mundo e afeto o mundo todo. É uma responsabilidade da qual não posso fugir.

Sempre tenho uma incômoda sensação de que algo essencial está sendo deixado de fora do modo como vivemos (ou pelo menos do modo como vivo). Quanto mais se fala sobre o ser humano como um ser social ou como fragmentado ou marginalizado abre-se todo um novo universo de desculpas. E esse talvez seja o ponto: por que sempre complicamos e criamos desculpas? Por que as decisões que tomamos têm que ser influenciadas pelo Outro?

Quando Sartre fala de responsabilidade, não é abstrato. Não se trata do tipo de 'eu' ou de 'alma' de que falam as religiões. É algo concreto. Somos nós, falando, tomando decisões e assumindo as conseqüências. Acho que a mensagem é que não devemos jamais nos eximir da responsabilidade com nós mesmos, e nos vermos como vítimas de várias forças.

Quem nós somos é sempre uma decisão nossa.



*Teria a Coca-cola tido a audácia de cancelar a produção desse doce e alaranjado líquido sem consultar a opinião de seu maior consumidor [ou seja, eu]?

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Apenas um soneto

Mudam-se os tempos, muda-se a verdade,
Muda-se o caráter, muda-se a confiança;
Tudo no mundo tende à mudança,
Mas algo não muda desde a antigüidade,

Aqueles que empregam suas habilidades,
para semear a desconfiança;
Para aos corruptos oferecer aliança,
e tornar a justiça, se já houve, em saudades.

'Artistas' que empregam seu canto,
se é se pode dizer assim de tal zurraria,
para vestir um ladrão de santo.

E é besteira acreditar que tudo mudará um dia.
E é daí que vem o motivo par'o pranto:
'Arte' alienada + mídia é igual a acefalia.

domingo, 7 de maio de 2006

Waking life

Cenas do filme Waking life
Você alguma vez já se questionou se a realidade tal qual a conhecemos é real mesmo? Se aquilo que concebemos como real é o que percebemos com nossos sentidos (visão, olfato, sons, etc) e não com nossa razão, então como podemos ter certeza de que o que percebemos é verdadeiro? Como saber se nossos sentidos não nos enganam? E mais ainda, há pessoas que dizem sonhar muito e outras que reclamam por não sonhar nada. Quer lembrem-se ou não dos sonhos que tiveram, já foi provado que todos os seres humanos sonham, e é aqui que está o ponto a que quero chegar: para o cérebro não faz diferença se é sonho ou realidade (o que explica por que nossas recordações das experiências que registramos dormindo são tão vivas). Mas se o que entendemos como realidade por sua vez for apenas uma convenção de nosso cérebro, então como diferenciar daquilo que é apreendido por nossos sentidos?

Assisti um filme hoje (o título é o mesmo desse texto) que me fez mais uma vez questionar a veracidade daquilo que considero realidade. Na trama, após não conseguir acordar de um sonho, um rapaz passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário. Uma das questões levantadas pelo filme é: estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes enquanto sonhamos? Quando paro para pensar a respeito, desconfio, por exemplo, que talvez os loucos sejam os únicos que, por terem perdido essa noção da linha tênue que separa a realidade da ilusão (ou não-realidade), descobriram a falha na matrix e enxergam as coisas como elas realmente são. Na falta de explicação melhor, fico com as palavras do mestre Poe: “O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?”.

sábado, 29 de abril de 2006

Noite Alucinante

Sempre gostei muito de filmes de terror, por isso foi com muita ansiedade que fui ao cinema assistir ao filme O Albergue. Minha espectativa era a mais alta possível: os posteres eram doentios, o trailler inicial perturbava pela tensão e pela extrema violência das cenas, e, para melhorar, ainda era produzido por Quentin Tarantino. Ou seja, não havia como o filme ser ruim. Noventa minutos após ter entrado no cinema, entretanto, a constatação era outra: fui enganado o filme não só é ruim, como é uma sequência de frustações mal encadeadas.
Numa das poucas cenas divertidas do filme, um dos personagens é partido ao meio por uma motoserra desgovernada, pode parecer sádico, mas nesse exato momento bateu uma saudade danada de uma série de filmes que assisti quando era adolescente. Noite Alucinante é o nome de uma das melhores, senão a melhor, trilogia de terror de todos os tempos. O primeiro da série, A Morte do Demônio (Evil Dead, 1981), é um filme bem seco: agressivo, violento e original em todos os sentidos. Já as continuações conservam o terror, mas adicionam elementos de comédia no estilo de Os Três Patetas. Por isso, os filmes são geralmente classificados como "Terrir".

O héroi, o primeiro e único Ash (Bruce Campbell)

No primeiro filme, um grupo de amigos vai a uma cabana isolada na floresta. Lá eles ouvem uma fita em que um arqueólogo recita passagens do Livro dos Mortos. A evocação traz da floresta as forças do mal e a noite se transforma numa luta sanguinária pela sobrevivência.

O livro dos Mortos, o infernalmente famoso Necronomicon Ex-Mortis

Os cinco minutos iniciais de Uma Noite Alucinante (Evil Dead II – Dead by dawn, 1987) resumem perfeitamente o primeiro filme, de tal forma que nem é preciso assisti-lo para entender essa continuação. Ash (o protagonista da história) e sua namorada, Linda, são atacados por espíritos que eles invocam quando tocam uma fita de audio gravada por um arqueólogo (na qual ele lê vários trechos do Livro dos Mortos). Como é de costume com todas as gravações arqueológicas, ela invoca forças demoníacas sedentas por destruição.

O herói, numa 'discusão amistosa' com sua namorada possuída,
ou melhor, com a cabeça possuída de sua namorada...

Numa cena clássica, a namorada de Ash é possuída e ele é forçado a decapitá-la e enterrá-la na floresta. O mais bacana é que ela ressurge (podre como se estivesse morta há décadas) e logo se reúne com sua estimada cabeça. Ash, que é um namorado carinhoso, prende a cabeça dela numa prensa e a estraçalha com uma serra elétrica, numa sequência de pura poesia em movimento.

Linda, logo após recuperar sua cabeça...

Nesse filme ainda há outras cenas memoráveis, como a mão possuída que se revolta contra seu dono, a “dança” de Linda e quando todos os objetos da sala ficam rindo de Ash. Quem está acostumado com os efeitos especiais de hoje poderá estranhar os do filme e achar tudo muito mal feito. E o pior é que eles são mal-feitos! Mesmo para o padrão da época em que os filmes foram lançados. Entretanto, o efeito é reverso pois as situações tornam-se mais engraçadas e o resultado é único no gênero, muito melhor, por exemplo, do que os recentes filmes de tortura, tipo Jogos Mortais e O Albergue.

O herói, após ser possuído e um pouco antes de perder a mão

O terceiro filme, Noite Alucinante III - O Exército das Trevas (Army of Darkness, 1993), comeca com Ash contando a sua inacreditável história (Noite Aluncinante II). Ele é enviado para a Idade Média, onde é capturado e levado como prisioneiro por um rei. Ash e um outro prisioneiro são jogados num poço cheio de demônios. O primeiro prisioneiro dura poucos segundos antes que seu sangue seja espirrado por todo lugar. Ash é o próximo, mas ele acaba com o demônio e sai do poço. Esse ato heróico dá a Ash algum respeito, daí ele sai em busca do Livro dos Mortos, a única forma de voltar para casa.

Ash, homem, matador de demônios, mito.

Ele o encontra, e para poder retornar à nossa época e afastar de vez a ameaça do Exército da Escuridão precisa recitar uma frase mágica ("clatu, verata, nictu", por coincidência o título desse blog, saiba mais clicando aqui). Em sua infinita ignorância, Ash recita as palavras erradas e invoca o tal Exército da Escuridão, e isso é só o início da diversão.

Capa do dvd do terceiro filme (que, infelizmente,
ainda não foi lançado nesse formato aqui no Brasil)

Os três filmes são imperdíveis e o diretor Sam Raimi, levou muita coisa da série Noite Alucinante para os dois filmes do Homem Aranha (como por exemplo, os movimentos alucinados de câmera junto ao herói). Recentemente, vários sites espalharam uma notícia sobre um quarto filme da série estar em produção, mas até o momento nada foi confirmado. Espero ter contribuído para a elevação cultural da sociedade com esta mini-resenha. Uma dica para o final de semana é procurar por qualquer um desses filmes na locadora mais próxima de sua casa, juntar uma galera bem medrosa, encher um baldão de pipoca e assistir.

É satisfação garantida ou o arrependimento de volta.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

O behaviorismo é um niilismo?

Certas coisas não entram em minha cabeça. Um dia desses parei para pensar a respeito do behaviorismo. Segundo essa teoria, o comportamento dos indivíduos é não apenas observável, como também pode ser medido e controlado, mais ou menos como os fatos e eventos das ciências exatas. O homem é passivo ao ambiente, é bombardeado por estímulos e seu papel se resume a reagir a eles.

O que não entra em minha cabeça é: o homem está morto? Quero dizer, se todas as minhas ações são reações ao ambiente, então minhas ações não partem de mim? Dizer que eu me comporto de acordo com um estimulo é retirar de mim aquilo que me qualifica como pessoa, como individuo. O que dizer então a respeito do inconsciente? Ele não existe?

Sei não, mas acho que não é correto pensar que o homem é passivo diante do ambiente. Fazer isso é atribuir-lhe um status de reagente e anulá-lo enquanto criador em potencial; é acreditar que a existência humana é desprovida de qualquer sentido. O ambiente que vai selecionar a ação humana não foi produzido pela própria ação humana? (ou ao menos por meio da intervenção humana?) Não seria então o caso de uma troca? Um movimento da natureza, do qual o homem não está acima dela, mas é parte dela?

Questões...

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Questões

Quarta-feira, 12 de abril de 2006, 19 horas e 15 minutos, Instituto de Letras, UnB, Brasília/DF, Brasil, América do Sul, continente americano, planeta Terra ( a terceira pelota celeste após o Sol).

Uma multidão de alunos enfurecidos se acotovela diante de uma porta fechada e uma janela semi-aberta. Seus olhos, vazios, distantes e cansados, já não vislumbram qualquer sinal de esperança. Destituídos de vontade própria, eles se contentam em reclamar enquanto aguardam. Afixada à porta encontra-se uma lista. Nela constam os nomes de 130 infelizes, pobres criaturas condenadas a passar a noite clamando pelo nome de um homem: Enrique, El Coordenador.

À direita da janela, outra lista com a relação das disciplinas com vagas disponíveis denuncia os sofrimentos pelos quais aquelas 130 almas estarão condenadas: Psicoparasitologia lingüística, Desaprendizagem Gerativa do Português, Língua Francesa Frita III, Português Extrume-e-tal I, Farsa I e II, etc. Do lado de dentro, funcionários bebem cerveja enquanto assistem avidamente o capítulo da novela.

Diante desse cenário, a 130ª alma da lista observa.

Seus olhos, vazios, distantes e cansados, também já não vislumbram sinal de esperança. A porta se abre, o relógio marca 21h:16min, um dos guardiões de Lúcif..., quer dizer, Enrique chama o próximo que seria atendido, é o felizardo de nº 09!

O 130º infeliz fecha os olhos (aqueles que estão vazios, distantes e cansados, e que já não vislumbram nenhum sinal de esperança), e se deixa levar por um turbilhão de pensamentos:

Por que a vida não pode mais ser simples como quando eu era criança?
O que aconteceu comigo?
Onde está o menino que fui?
Vive em mim ou desapareceu de vez?
Como pude sacanear aquele carinha destemido e cheio de planos que fui um dia?
Quando minha infância se foi por que cargas d’água eu não a acompanhei?
O que aconteceu com o Kichute, a Conga e o Bamba?
E com o Falcon?
Por que não consigo me lembrar do rosto de pessoas que foram importantes em pontos cruciais de minha vida?
Será que existe vida após a morte?
Se não existe vida após a morte, porque nos privamos de viver a vida em toda a sua potencialidade?
Será que existe vida em outro planeta?
Se existe, por que vim nascer justo neste planeta?
Será que lá também tem fila?
Tem coisa mais desanimadora na vida que ficar numa fila sem fim?
Tem coisa mais desanimadora na vida que ficar numa fila sem fim, se você sabe que o que você realmente quer não pode ser atendido?
Quem sabe o que realmente se quer?
A quem eu dirijo estas perguntas?

Tomado por um momentâneo lapso de lucidez, o 130º condenado, abriu os olhos (que, de repente, não estavam mais tão vazios, distantes e cansados), olhou ao redor e se despediu dos demais. Jogou fora sua folhinha de inclusão de disciplinas e foi viver.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Lista de pedidos (Wishlist)

Pearl Jam, Yield

Queria ser uma bomba de nêutrons,
ao menos uma vez eu poderia explodir.
Queria ser um sacrifício
que de alguma forma conseguisse sobreviver.
Queira ser o enfeite sentimental que você pendura,
A árvore de Natal,
eu queria ser a estrela que fica no topo,

Queria ser a prova,
Queria ser o motivo
para cinqüenta milhões de mãos
levantadas e abertas em direção ao céu

Queria ser um marinheiro
com alguém esperando por mim
Queria ser tão sortudo,
tão sortudo como eu.

Queria ser um mensageiro,
e que todas as noticias fossem boas
Queria ser a lua cheia
iluminando o capô do seu carro.
Queria ser um alienígena,

em casa atrás do sol,

Queria ser a lembrancinha
que você guarda com a chave da sua casa.
Queria ser o pedal do freio que você confia.
Queria ser o verbo confiar,
e jamais te desapontar.

Queria ser a canção de rádio,
aquela que você aumenta o volume,
Queria...

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Casamento

Geralmente quando se pergunta a alguém porque ele/ela vai se casar, a resposta nem sempre (ou quase nunca) é porque se ama o(a) parceiro(a). Na maioria dos casos os motivos são outros: para não ficar sozinho(a); porque faz muito tempo que se está namorando e já chegou a hora de partir para algo definitivo; porque todos de sua idade já se casaram, etc.. Excluindo-se a resposta padrão e unânime (e aqui não interessa o grau de veracidade) de que o motivo da união foi o amor, um dos principais motivos é o medo de ficar só.

Visto assim, o casamento funcionaria como uma espécie de cura para a solidão e a sensação de vazio. O segundo maior motivo é o desejo de construir um lar que represente conforto e segurança e, em terceiro lugar, estão as pessoas que se casaram porque viram que os outros a sua volta também se casaram.

Com razões tão vazias é muito provável que esses casamentos estejam desfeitos em alguns anos. Talvez seja um sinal dos tempos, ou talvez seja pelo fato de eu andar muito amargo ultimamente, mas acredito que a motivação e os requisitos para que um casamento dê certo mudaram muito. Houve um tempo em que as juras de amor eterno eram a motivação, quase exclusiva, para sustentar as expectativas do sucesso matrimonial, hoje fala-se em “afinidade”, e é aí que está o grande problema, na minha opinião, o matrimônio é uma espécie de despersonalização.
“Casar é conjugar e reside aí o fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, duas individualidades.”. Em outras palavras, isso equivale a anular dois sujeitos, com visões de mundo, histórias e projetos de vida diferentes numa única identidade conjugal. Isso sem falar nas concessões. No casamento tradicional (e durável), é fundamental que um saiba da vida do outro. Não só da vida, mas dos sentimentos, carências, conflitos... Há a necessidade de conhecer-se e ao outro... Ou seja, considerando-se que o motivo do casamento não foi o amor, é um preço muito alto a se pagar só para não ficar sozinho.

domingo, 2 de abril de 2006

Confissão

charles bukowski

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na
cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas
as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram
coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que
sempre
tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

Fonte: Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski, com tradução de Jorge Wanderley, pela editora Bertrand Brasil, edição de 2003.

domingo, 26 de março de 2006

As cigarras de Mao Tsé-tung & Lenin

Sabe aqueles bichinhos que irritam logo ao nascer do sol com seu canto insuportável e estridente? Não! Não estou falando daquele seu vizinho xarope que gosta de ouvir Calypso, mas das cigarras. Também conhecidas pelo nome científico de Cicada orni, e pertencentes à classe Insecta da ordem Homoptera, as cigarras conseguem ser quase tão chatas quanto aquele(a) vizinho(a) mala fã do Calypso.
Mas para que serve uma cigarra?
Todo mundo que cursou ao menos o primário sabe que todos os animais da natureza têm uma função específica, uma importância que faz com que o ciclo natural do ecossistema exista. Assim, o rato, a borboleta e o leão têm suas devidas funções de importância vital à natureza. Mas alguém se lembra de ter aprendido a função da cigarra?
Tudo que se sabe sobre este inseto bizarro é que se mantém enterrado por cerca de 14 anos e depois sai da terra para escalar uma árvore. Muda de casca e fica chiando até explodir! A despeito dessa vida totalmente sem graça, não há a menor função justificável de existirem! Parece ser um bicho fora do mundo animal...
Observando por esse prisma (sic...), fica mais fácil divagar sobre a função real deste inseto insuportável:
Se elas não são naturais, de onde vieram?
Porque cantam até explodir?
Porque ficam encubadas sob a terra?

Após anos de observação, acredito que finalmente posso responder essas questões: as cigarras fazem parte de um projeto comunista para dominar o mundo. Isso fica evidente se pensarmos que só existem cigarras no ocidente (quem já tiver visto uma cigarra em Singapura que se pronuncie!). Elas só habitam árvores que ficam próximas a apartamentos ou casas, com o objetivo de transferir informações sobre o mundo capitalista à China Vermelha. Quem já cometeu a nojeira de pegar uma cigarra, pôde perceber que ela é seca e praticamente oca. Ela não sente dor ao ter uma patinha ou uma asa retirada, por exemplo. A dedução mais correta é que se trata de um pequeno computador biocibernético bastante evoluído tecnologicamente (o que você acha que os vermelhos ficaram fazendo desde o fim da Guerra Fria, criando ovelhas? Só se forem as clonadas...)

Todos aqueles chiados que os insetos bolcheviques produzem são as informações sobre o dia-a-dia ocidental em forma de ondas de rádio criptografadas, captadas por satélites russos e traduzidos nos bancos de dados da antiga União Soviética (sim, ela ainda existe) para a central de dados chinesa. Para obter informações dos cromossomos dos burgueses ocidentais, esses animais eliminam pequena quantidade de líquido sobre as pessoas, que passam informações genéticas por meio de microondas aos satélites. Esse líquido é chamado ingenuamente pelo povo de "xixi de cigarra"... Depois que cada cigarra passou suas informações ao governo chinês, ela explode para que as informações armazenadas nela sejam destruídas! Está explicado aqui a função deste irritante biomicrochip. Alguém aí se prontifica a responder qual a função dos vizinhos malas que ouvem o Calypso?
Aqui o flagra de uma cigarra tirando seu disfarce de capitalista. Note a estrela vermelha tatuada no bíceps...

sábado, 11 de março de 2006

A luxúria

Um dia desses eu estava sonambulando pela Internet e encontrei um teste que se propunha a medir o nível dos pecados mais cometidos pela pessoa. Segundo o site (http://www.4degreez.com/misc/seven_deadly_sins.html), incontáveis almas têm sucumbido aos sete pecados capitais (avareza, gula, ira, preguiça, inveja, luxúria e soberba) e o questionário serviria para indicar para qual círculo do inferno você será enviado, ou para servir de alerta para que você mude sua atitude e promova uma mudança de comportamento.

Para minha surpresa, meu destino já foi traçado. Eu cometi (e cometo) muitos pecados, mas a luxúria é o que me condena ao inferno. De acordo com o que Dante descreveu na Divina Comédia, meu cantinho lá em baixo é o segundo círculo, onde as almas dos que pecaram por luxúria são continuamente arrebatadas e atormentadas por um horrível turbilhão de vento.


Nessa ilustração de Gustave Doré, Virgílio e Dante observam as almas (condenadas pelo pecado da luxúria) sendo carregadas pelo vento. No primeiro plano, pode-se observar um casal em destaque, Paolo e Francesca. Os dois eram cunhados adúlteros que foram surpreendidos e mortos pelo marido traído.


Dante classifica o pecado da luxúria como o menos grave de todos, colocando-o no círculo mais externo (o primeiro círculo não conta, pois nele só havia os sábios, os poetas, etc.). Isso é demonstrado pela compaixão que ele sente pelos pecadores, se emocionando com o relato de Francesca. A ventania foi a grande sacada poética para o pecado: em vida, os amantes eram levados por suas paixões, que os arrastava como o vento que agora os arrasta no inferno.

Ilustração de William Blake

Como o objetivo desse blog é servir de espaço para minhas divagações e devaneios insones, acho que não serei mal-compreendido se disser que acabo de me lembrar de um artigo do Frei Betto no qual ele trata justamente sobre os pecados capitais. De acordo com ele, a luxúria é a marca registrada da maioria dos clipes publicitários, em que jovens esbeltos e garotas esculturais desfrutam uma vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Ela nasce nos olhos, agita a mente e perturba o coração. O objeto do desejo nos aliena do amor enquanto projeto, aprisionando-nos no jogo narcisista da sedução.

Por mais que eu goste da visão romântica proposta por Dante (aquela de que os luxuriosos levam a vida embalados por suas paixões), tenho que concordar que a visão de Frei Betto é a que melhor se aplica à luxúria em nossos tempos. Ela, é a busca por usar coisas ou pessoas para suprir nossos desejos e necessidades e concentra-se apenas em si mesma; é de natureza egoísta e não aceita compromissos.

E a culpa é das supostas facilidades da vida moderna: elas nos transformaram em autômatos fetichistas controlados pela mídia. Desde pequenos somos programados a buscar a felicidade, mas, não sabemos como encontrá-la e se, por algum acaso do destino a encontramos, não sabemos reconhecê-la. Passamos a vida fazendo coisas que detestamos com o objetivo de ganhar dinheiro para que possamos comprar coisas de que não necessitamos para, assim, impressionarmos pessoas que não nos agradam.

Ah, vida real, como é que eu troco de canal...

domingo, 5 de março de 2006

Os dois filhos do Esmorecimento

Depressão e Desânimo são irmãos e filhos da Dona Desesperança e de Seu Esmorecimento. São como gêmeos siameses que compartilham o mesmo coração e que, de uma hora para outra, por meio de uma cirurgia, são obrigados a viver em corpos separados. Quando pequenos, ficaram aos cuidados de Dona Tristeza, que lhes ensinou os rudimentos do que seriam as leis mais importantes desse mundo: que é melhor ser triste; que a vida é uma sucessão de frustrações – é uma corrida na qual o último lugar já está reservado desde a largada; que nossa existência é a tentativa infinita de se conseguir atingir objetivos que jamais poderão ser alcançados.

Na adolescência, nas aulas com a professora Aflição, descobriram que a felicidade é um delírio que só conhece quem mais sofre. A vontade de se atingir a outra margem do rio por meio de um salto é uma ilusão dos ignorantes que sempre querem um maior querer. Aprenderam que foi essa ilusão que criou os deuses e todas as crenças. Que foi a mente com suas necessidades e maquinações que desesperou o corpo e o suprimiu.

Assim como os gêmeos uni vitelinos, dos quais se diz que podem compartilhar certas sensações, Depressão e Desânimo, cresceram dividindo o pesar e fracasso entre si. Pelo menos, foi isso o que aconteceu quando Desânimo conheceu Esperança e por ela se apaixonou. Esperança surgiu como uma promessa de redenção e redefinição de tudo o que Desânimo havia conhecido até então. Entretanto, Depressão não entendia porque seu irmão se interessara por alguém tão fraco, alguém tão... tão enganado sobre as leis do mundo. Foi então que os laços fraternais se fizeram mais fortes, Desânimo percebeu que Esperança não era para ele: eles eram muito diferentes. Ele sabia que não adiantava lutar por algo se, no final, o fracasso já estava garantido; Ela acreditava que nunca se poderia desistir de algo no qual se acredita....

Dessa forma cresceram e tornaram-se adultos. Desespero conheceu uma moça que compartilhava sua visão de mundo – Ignorância. Juntaram-se, formaram uma banda de rock melódico e atualmente espalham sua mensagem pelo planeta. Depressão finalmente se apaixonou. Casou-se com o Desencanto e teve dois filhos: Desalento e Solidão. E ninguém pode dizer que foram felizes para sempre, pois eles nunca acreditaram na Felicidade.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Lista das cinco melhores músicas para se ouvir de madrugada durante a insônia

Para aproveitar a insônia, resolvi colocar aqui a lista comentada das cinco melhores músicas (em minha opinião) para se ouvir de madrugada enquanto o sono não chega.

Elderly woman behind the counter in a small town
Pearl Jam

Uma canção linda e simples. A maioria das pessoas acham que é uma música sobre alguém que não consegue se lembrar de um rosto conhecido. Eu, particularmante, acredito que tem mais a ver com as escolhas que fazemos na vida e aquelas que são determinadas pelo comodismo do cotidiano ou sobre envelhecer sem tem a liberdade para escolher o próprio caminho. De qualquer forma, Pearl Jam detona e merece sempre um espaço durante a vigília da madruga.

I swear I recognize your breath
Memories like fingerprints are slowly raising
Me you wouldn’t recall, for I’m not my former
It’s hard when you’re stuck upon the shelf
I changed by not changing at all,
small town predicts my fate
Perhaps that’s what no one wants to see
I just want to scream... Hello...
My God it’s been so long,
Never dreamed you’d return
But now here you are, and here I am
Heartsand thoughts they fade...
Away...

Eu juro que reconheço a tua respiração
Memórias como se fossem impressões digitais
estão lentamente aparecendo
De mim você não deve se lembrar, pois
Não estou como costumava ser
É difícil quando você fica como que atolado na areia
Eu mudei, mas não por completo,
A cidade pequena vaticinou meu destino.
Talvez seja isso o que ninguém quer ver
Eu só quero gritar... Olá!
Meu Deus, há quanto tempo...
Nunca sonhei que você voltaria...
Mas aí está você, e aqui eu estou.
Corações e pensamentos, eles se esvaem
E desaparecem...



Confortably numb
Pink Floyd

Além de representar um desejo que não se cumpriu hoje à noite (o de estar confortavelmente paralisado - pelo sono), a música Confortably numb, do Pink Floyd, é a síntese perfeita da ópera rock idealizada pelo grupo para o disco The Wall. É a figura cruel e depressiva da vida de um rock star e a letra sempre me deixa grilado com a saúde mental do Roger Waters. Fico sempre em dúvida se ele escreveu como uma forma de catarse; para tentar exorcizar algum fantasma do passado, ou como exercício extremo de caracterização do mito do rock star sem perspectiva de vida, como exemplificam os versos abaixo:

When I was a child I caught a fleeting glimpse
Out of the corner of my eye
I turned to look but it was gone
I cannot put my finger on it now
The child is grown, the dream is gone
I have become comfortably numb

Quando eu era criança percebi um reflexo de relance
Com o canto do meu olho
Eu virei para olhar mas já tinha ido
Não consigo colocar meu dedo lá agora
A criança cresceu, o sonho se foi
Eu me tornei confortavelmente paralisado
Down in a hole
Alice in Chains
O Alice in Chains foi um dos grupos que eu tive a oportunidade de acompanhar ansiosamente o lançamento de cada álbum. O segundo disco, Dirt, é um dos melhores registros não apenas da estética grunge, como também do heavy metal como um todo. O disco inteiro pode ser interpretado como uma metáfora para o inferno da depressão causada pela dependência química, daí o nome do disco: Dirt (sujo). O amor pela heroína. A dor causada pela heroína. A atormentadora tentativa de se livrar da heroína. Tudo isso não deixa espaço para dúvida, este é o mais profundo e cru relato de auto-destruição causada pelo vício já gravado num disco. A música em questão resume perfeitamente tudo o que é tratado em Dirt (além do profético destino do vocalista da banda), a começar pela introdução, lenta e agradável, que rapidamente fica fria e sombria, passando pela letra em que Layne Stanley se lamenta: "I have been guilty / Of kicking myself in the teeth" (Eu fui o culpado por chutar meus próprios dentes).
Último romance
Los Hermanos
Sempre fui meio desconfiado com o Los Hermanos. Acho que esse preconceito era por causa da Ana Júlia, que ainda hoje cisma em aparecer em regravações de cantores e grupos que nem vale a pena listar. Ainda bem que consegui vencer isso, pois atualmente, Los Hermanos é a minha banda brasileira preferida. E o disco Ventura, o terceiro deles, traz uma sonoridade única, misturando MPB, samba, rock, pop num amalgama capaz de deixar na indecisão os críticos musicais mais sistemáticos. Último Romance é uma das mais belas canções que já ouvi e combina perfeitamente não apenas com o clima depressivo da madrugada insone, mas com qualquer outra situação.
That’s life
Frank Sinatra
Uma das coisas legais de se escutar música de madrugada durante a insônia é que, com isso, você consegue uma forma de focalizar seus pensamentos. Geralmente funciona assim: você começa a ouvir a música e, de repente, idéias, muitas vezes desconexas, começam a brigar por espaço na mente desorientada. Por isso, depois de umas trinta e tantas músicas que fazem pensar, sempre é bom dar um descanso para o cérebro com algo que você possa simplesmente ignorar. E é aí que chega a vez de escutar o Mr. Ol’ Blue Eyes. Não que a letra seja de todo insipiente (o que pode ser comprovado que não é, pelo trecho abaixo) o fato é que, depois das três da madruga, qualquer tentativa de raciocínio, assim como os reflexos para digitar, é nula.
That's life
That's life (that's life), that's what all the people say
You're ridin' high in April, shot down in May
But I know I'm gonna change that tune
When I'm back on top, back on top in June
I said that's life (that's life), and as funny as it may seem
Some people get their kicks stompin' on a dream
But I don't let it, let it get me down
'cause this fine old world, it keeps spinnin' around
I've been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king
I've been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself flat on my face
I pick myself up and get back in the race
That's life (that's life), I tell you I can't deny it
I thought of quitting, baby, but my heart just ain't gonna buy it
And if I didn't think it was worth one single try
I'd jump right on a big bird and then I'd fly

I've been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king
I've been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself layin' flat on my face
I just pick myself up and get back in the race
That's life (that's life), that's life and I can't deny it
Many times I thought of cuttin' out but my heart won't buy it
But if there's nothin' shakin' come this here July
I'm gonna roll myself up in a big ball a-and die

My, my!
Até a próxima.
Marcos

domingo, 19 de fevereiro de 2006

De calças curtas

Eleominilson escutou a porta sendo aberta e rapidamente tratou de fechar a janela do navegador. Na pressa, apertou mais teclas do que devia e o computador travou com o browser aberto, mostrando uma fotografia hardcore de uma loura numa pose tirada diretamente do Kama Sutra. A saída seria desligar o computador de vez, mas, para fazer isso, ele teria de se enfiar embaixo da mesa, deixando o monitor totalmente desprotegido. Era tarde demais, Irisdelfane estava parada na frente dele, de braços cruzados e com a testa franzida. Era melhor disfarçar.

– Oi amor. Tudo bem?

– Não.

Mau começo. Era preciso pensar rápido.

– Você cortou o cabelo? Sua franja está lindíssima.

– Você bebeu, Eleominilson? Eu não tenho franja. E faz mais de um mês que não vou ao cabeleireiro.

– Ah, mas que coisa. Eu achava que esse corte seu chamava “franja”. Vamos lá na sala para você me explicar melhor os nomes dos penteados femininos?

Eleominilson começou a levantar, jogando o corpo na frente do monitor, mas Irisdelfane não se moveu. Ele se sentou de novo.

– Você está na Internet outra vez, não é?

– Na verdade, não. Veja só, o computador travou, e, por falar nisso, você não quer me fazer o favor de desligar a CPU? É só apertar aquele botãozinho ali.

Mas ao invés de apertar o botãozinho, Irisdelfane empurrou a cadeira de Eleominilson e encarou o monitor.

– Não acredito!

Era preciso agir rápido. Partir para o ataque. Mostrar quem usava as calças naquele casamento. E aproveitar para reiniciar o computador.

– Não acredita no quê, Irisdelfane? Você está presumindo que eu fui atrás dessa foto? Está? Mas e se na verdade eu tiver recebido pelo e-mail? E se ela tiver chegado numa mensagem em branco, anônima? Ou pior, numa mensagem do Marcunguduvaldo? Como é que eu não ia abrir um arquivo mandado pelo meu melhor amigo? Ela não significa nada. Essa desconfiança é a morte da nossa relação! Eu posso achar essa loira horrível! Eu posso ter ficado ofendidíssimo com essa imagem. E se você reparar, ela está sem roupas, mas não dá para ver nada, pois tem um rapaz cobrindo os seios dela com as mãos! Tecnicamente, é como se ela estivesse vestida, porque tem um outro rapaz cobrindo a genitália dela com a cabeça. Se ela estivesse vestida você não faria essa cara, não é? Isso é preconceito, Irisdelfane. É a mesma coisa que não gostar de alguém por causa da religião. Por que uma foto da moça vestida é permitido e uma dela sem roupa, mas deitada sobre um rapaz e apoiada sobre outro, num ângulo que só mostra o rosto e os ombros, é o fim dos tempos? Tudo bem, dá para ver essa curvinha das costas, mas isso não conta. Você não esta sendo justa. Se você refletir bem verá que não há problema algum.

– É claro que há problema.

– Putz, não funcionou... (pensou Eleominilson).

Eleominilson tentou fingir um ataque de SCI (Síndrome do Cólon Irritado) e começou a rolar no chão com as mãos na barriga. Porém, Irisdelfane não parecia impressionada.

– Não seja ridículo, Eleominilson. O problema é que você está na Internet há mais de trinta minutos e eu quero usar o telefone. Se ainda fosse para alguma coisa útil, vá lá. Mas se o que você quer é ver foto de mulher pelada, faça-me o favor de ir comprar uma revista, porque eu quero conversar com a Usnavy antes da novela começar.

E com isso ela saiu do quarto. Eleominilson sentou novamente e esperou o computador reiniciar. Por um momento ele até quis ir à banca. Mas, pensando bem, ele estava de bermuda. A Irisdelfane é que estava de calças. Era melhor ficar jogando “Paciência” até o fim do Jornal Nacional.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Instruções para chorar

Julio Cortázar

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mucos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto he resulta impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca. Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro. As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.

Instrucciones para llorar
Julio Cortázar

Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente. Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca. Llegado el llanto, se tapará con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia adentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del
llanto, tres minutos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

MSN

Quarta-feira, 22h e 50 min, num bar desses da Asa Norte. Rapaz Pré-Balzaquiano com gel no cabelo (RPBCGC) encontra com Garota Pós-Adolescente Estudante de Letras (GPAEL) enquanto esperam suas respectivas oportunidades de usar o mictório do estabelecimento.

RPBCGC (visivelmente tímido, tenta uma aproximação verbal com GPAEL): Você vem sempre aqui?

GPAEL (deslumbrada com a autenticidade do argumento de RPBCGC): No banheiro, sim. E você?

RPBCGC (sentindo-se vitorioso por ter conseguido derrubar a primeira barreira rumo ao estabelecimento do diálogo): Eu também! Só que no masculino.

GPAEL (dando sinais de entrosamento): É...

RPBCGC (captando o significado implícito daquela vogal): É.

GPAEL: É... Mas essa é a primeira vez que venho a este bar.

RPBCGC: Que coincidência! Eu também!

GPAEL (mudando de assunto): Já são 22h:51min!

RPBCGC (rápido como uma bala): É isso aí, 22 horas e 51 minutos da quarta-feira!

GPAEL (raciocinando): Nossa já é quase quinta-feira!

RPBCGC (dois minutos depois): Putz! É mesmo!

GPAEL (...): Será que vai chover?

RPBCGC (metafísico): Acho que já está chovendo. (Olha para fora e, três minutos depois) Sim, já está chovendo!

GPAEL (mística) É...

RPBCGC: Não há muito espaço aqui, digo, nesses corredores, né?

GPAEL: É... Não há muito.

RPBCGC (tentando reatar o interesse): Que horas são?

GPAEL: 22h e 55 min.

RPBCGC: É... Chegou a tua vez de usar o banheiro.

GPAEL: É...

RPBCGC: Foi legal conversar com você...

GPAEL: É... Até mais...

RPBCGC: Até.

GPAEL entra no mictório e desaparece da vida de RPBCGC. Enquanto esvazia sua bexiga, RPBCGC, pensa que poderia ao menos ter perguntado o nome de GPAEL...

Ah, essas conversas da era do MSN...

sábado, 11 de fevereiro de 2006

O filme cósmico

“Bom, todos nós estamos no filme cósmico, sacou?
Isso quer dizer que no dia que você morre, você
tem que assistir toda a sua vida em reprise eterna,
em Cinemascope e 3D. Então, é melhor que haja
alguns bons incidentes acontecendo lá...
e um final bem apropriado!”
-- Jim Morrison
[1]



A morte prematura de um astro de rock não é mais novidade atualmente. A história da música está cheia de exemplos de jovens cantores que abandonaram a vida no auge da fama e acabaram se tornando mártires: Janis Joplin, Renato Russo, Jimmy Hendrix, Cazuza, Kurt Kobain, Laine Stanley, Rita Lee... A lista poderia se estender por páginas e exemplifica o quanto a filosofia do “e melhor queimar de uma vez que ir apagando aos poucos” tornou-se popular.

Isso hoje. Em julho de 1971, entrar nessa lista era uma atitude muito destemida para um rock star. E é aí que entra em cena Jim Morrison, o líder do The Doors. Pode-se dizer que o Lizard-man – como Morrison gostava de ser chamado – foi o precursor dessa onda de mártires do rock, pois, logo após sua morte, ele foi beatificado pela poética beat (sacou o trocadilho?!) e pelo couro preto. Tanto que para os fãs-órfãos que até hoje peregrinam anualmente para o Perè Lachaise[2], ele é o próprio Che Guevara do trinômio sexo_drogas_e_rock’n’roll.

Escrevo este texto enquanto escuto o disco L.A. Woman, e fico pensando comigo: “O que será que ele diria de tudo isso? Será que ele levaria a sério essa história de mártir do rock?”. Acho que ele provavelmente tiraria um sarro. Morrison não se considerava roqueiro, mas um poeta. Além disso, ele não era tão sentimental em relação à “revolução do rock”, como ele próprio demonstrou em alto e bom som na música “Rock is dead”:

O rock está morto,
Deve haver algo mais em seu lugar.
Morra, morra, morra,
morra...
Está tudo acabado baby

Isso pode parecer cinismo, mas, para mim, ele não era apenas mais um suicida_do_rock como muitos dizem. Acredito a maior lição que podemos tirar de sua morte é que ele escolheu intensidade ao invés de duração. Acho bem mais plausível que ele tenha feito de sua vida um exemplo para todos aqueles que refreiam os próprios desejos e se acomodam diante da mesmice do cotidiano. Ao invés de se conformar, ele preferiu viver a vida em toda a sua potencialidade.

Daí a citação do começo desse texto. Segundo Morrison, não é só porque temos problemas que devemos desistir de viver. Problemas todos têm. O importante é fazer com que o filme cósmico, a nossa vida, nunca caia na monotonia, e que haja sempre algum lance interessante acontecendo, pois, além de sermos os atores principais, após a morte, seremos os expectadores perpétuos.

Fico por aqui, e só para terminar segue mais um pensamento:

"Dizer sim à vida até diante de seus problemas,
mais estranhos e difíceis; o desejo de viver acima
de exaustão mesmo diante dos maiores sacrifícios
- isso é o que chamo de Dionísio, o que entendo
como a passagem para a psicologia do poeta trágico.
Não para se dispor do trágico e da compaixão, mas
para transformar-se na alegria eterna de
transformação, acima de qualquer terror ou piedade".
-- Jim Morrison

Até mais.

Marcos

---------
Notas:

[1]"Well, we’re all in the cosmic movie, you know that! That means the day you die, you gotta watch your whole life recurring eternally forever, in Cinemascope, 3-D. So you better have some good incidents happenin’ in there… and a fitting climax!"
— Jim Morrison, na introdução da música ‘Been down so long’ durante o show realizado no Cobo Arena, Detroit Michigan, em 8 de maio de 1970.

[2] Um famoso cemitério, em Paris, que carrega a reputação de ser o cemitério mais famoso do mundo. Entre seus "hóspedes" estão os escritores Molière (1622-1673), Honoré de Balzac (1799-1850) e Oscar Wilde (1854-1900), o músico Frédéric Chopin (1810-1849) e o espírita Allan Kardec (1804-1869), além do roqueiro em questão.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

O problema de se pensar

Penso na vida.
Penso no que será da vida.
Penso no que vou fazer da vida.
Penso no que fiz até aqui com a vida.
Penso no que os outros fazem com a vida.

Penso em como poderia ser a vida se...
E sempre há um se...
Se fosse assim...
Mas e se fosse assado...
Talvez isso...
ou talvez aquilo...

E o problema é esse,
perco muito tempo pensando.
Quando se pensa demais na vida,
e se esquece de viver,
a vida passa...

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Pensar é Transgredir

Lya Luft

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

LUFT, Lya. Pensar é Transgredir, Ed Record, São Paulo.

Noite inesquecível

Um casal está calmamente assistindo televisão à noite. O marido pergunta para a mulher:

- Posso saber por que você está emburrada desde que eu cheguei?

A mulher (toda chorosa) responde:

- Hoje faz 18 anos que nós somos casados e estamos aqui, parados em frente a essa televisão...

- MEU DEUS! Eu estave tão atarefado que esqueci completamente! Perdoe-me, minha querida. Coloque seu melhor vestido de noite que vamos sair. Você terá uma noite inesquecível...

- Ah, querido, eu sabia que você não era um monstro...

À entrada do restaurante, aproxima-se o maitre todo solicito:

- Boa noite senhor! – e fala em seguida para o garçom:

- Preparem a mesa do senhor Fagundes.

A mulher:

- Eles parecem te conhecer bem aqui, querido...

- Ah é!... Acho que eu vim aqui para almoçar com alguns clientes...

Eles acabam de jantar e o marido propõe de irem a uma boate. Na entrada tinha uma fila enorme. O marido diz a mulher que vai arranjar tudo e se dirige ao porteiro:

- Salve Macalé! Como vai essa força?

Macalé:

- Tá muito bem seu Fagundes. Pode ir entrando...

Dentro da boate o dono vem falar com o casal:

- Boa noite Fagundes! - e diz logo em seguida:

- Liberem a mesa do senhor Fagundes...

A mulher desconfiada, pergunta:

- Você vem sempre aqui?

- Ah não! O dono que é um cliente da firma...

Uma vez na mesa, a garçonete vem e diz:

- O de sempre, Senhor Fagundes?

Enquanto isso, uma mulher que começava a cantar em cima do palco, interrompe a música e diz:

- ESTA MÚSICA EU OFEREÇO PARA QUEM?! – e a boate em peso:

- Fagundes! Fagundes!

Depois disto a mulher não agüenta mais e, chorando, sai correndo. O marido vai atrás e eles entram juntos num táxi. O marido tentando apaziguar as coisas:

- Querida, não vamos estragar esta noite maravilhosa, com certeza eles me confundiram com outro Fagundes...

- Você tá pensando que eu sou alguma idiota, seu canalha? Não me toque mais, por favor...

Nisto o motorista de táxi se vira e diz:

- Seu Fagundes, faz 10 anos que a gente se conhece. Vai por mim, vagabundas nós já pegamos às dezenas, mas chata como essa aí, é a primeira vez...

sábado, 28 de janeiro de 2006

O Sono

Álvaro de Campos

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?, Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!

Sala de Espera

Luis Fernando Verríssimo

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária.

Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu sou antigo. Bom era o barulhinho. Suish-suish. Elas cruzavam as pernas e fazia suish-suish. Eu era doido por um suish-suish.

Ela pensa: cara engraçado. Lendo a revista de cabeça para baixo.

Ele: te arranco a roupa e te beijo toda. Começando pelo pé. Que cena. A enfermeira abre a porta e nos encontra nus sobre o carpete, eu beijando o pé. O que é isso?! Não é o que a senhora está pensando. É que entrou um cisco no olho desta moça e eu estou tentando tirar. Mas o olho é na outra ponta! Eu ia chegar lá. Eu ia chegar lá.

Ela: ele está olhando as minhas pernas por baixo da revista. Vou descruzar as pernas e cruzar de novo. Só para ele aprender.

Ele: ela descruzou e cruzou de novo! Ai meu Deus. Foi pra me matar. Ela sabe que eu estou olhando. Também, a revista está de cabeça pra baixo. E agora? Vou ter que dizer alguma coisa.

Ela: ele até que é simpático, coitado. Grisalho. Distinto. Vai dizer alguma coisa...

Ele: o que é que eu digo? Tenho que fazer alguma referência à revista virada. Não posso deixar que ela me considere um bobo. Não sou um adolescente. Finjo que examino a revista mais de perto, depois digo "Sabe que só agora me dei conta de que estava lendo essa revista de cabeça para baixo? Pensei que fosse em russo." Aí ela ri e eu digo "E essa sua Cruzeiro? Tão antiga que deve estar impressa em pergaminho, é ou não é? Deve ter desenhos infantis do Millôr." Aí riremos os dois, civilizadamente. Falaremos nas eleições e na vida em geral. Afinal, somos duas pessoas normais, reunidas por circunstância numa sala de espera. Conversaremos cordialmente. Aí eu dou um pulo e arranco toda a roupa dela.

Ela: ele vai falar ou não? É do tipo tímido. Vai dizer que tempo, né? A senhora não acha? É do tipo que pergunta "Senhora ou senhorita?" Até que seria diferente. Hoje em dia a maioria já entra rachando... Vamos variar de posição, boneca? Mas espere, nós ainda nem nos conhecemos, não fizemos amor em posição nenhuma! É que eu odeio as preliminares. Esse é diferente. Distinto. Respeitador.

Ele: digo o quê? Tem um assunto óbvio. Estamos os dois esperando a vez num dentista. Já temos alguma coisa em comum. Primeira consulta? Não, não. Sou cliente antiga. Estou no meio do tratamento. Canal? É. E o senhor? Fazendo meu check-up anual. Acho que estou com uma cárie aqui atrás. Quer ver? Com esta luz não sei se... Vamos para o meu apartamento. Lá a luz é melhor. Ou então ela diz pobrezinho, como você deve estar sofrendo. Vem aqui e encosta a cabecinha no meu ombro, vem. Eu dou um beijinho e passa. Olhe, acho que um beijo por fora não adianta. Está doendo muito. Quem sabe com a sua língua...

Ela: ele desistiu de falar. Gosto de homens tímidos. Maduros e tímidos. Ele está se abanando com a revista. Vai falar do tempo. Calor, né? Aí eu digo "É verão". E ele: "É exatamente isso! Como você é perspicaz. Estou com vontade de sair daqui e tomar um chope". "Nem me fale em chope." "Você não gosta de chope?" "Não, é que qualquer coisa gelada me dói a obturação". "Ah, então você está aqui para consultar o dentista, como eu. Que coincidência espantosa! Os dois estamos com calor e concordamos que a causa é o verão. Os dois temos o mesmo dentista. É o destino. Você é a mulher que eu esperava todos estes anos. Posso pedir sua mão em noivado?"

Ele: ela está chegando ao fim da revista. Já passou o crime do Sacopã, as fotos de discos voadores... Acabou! Olhou para mim. Tem que ser agora. Digo: "Você está aqui para limpeza de pernas? Digo, de dentes? Ou para algo mais profundo como uma paixão arrebatadora por pobre de mim?"

Ela: e se eu disser alguma coisa? Estou precisando de alguém estável na minha vida. Alguém grisalho. Esta pode ser a minha grande oportunidade. Se ele disser qualquer coisa, eu dou o bote. "Calor, né?" "Eu também te amo!"

Ele: melhor não dizer nada. Um mulherão desses. Quem sou eu? É muita perna pra mim. Se fosse uma só, mas duas! Esquece, rapaz. Pensa na tua cárie que é melhor. Claro que não faz mal dizer qualquer coisinha. Você vem sempre aqui? Gosto do Roberto Carlos? O que serão os buracos negros? Meu Deus, ela vai falar!

- O senhor podia...

- Não! Quero dizer, sim?

- Me alcançar outra revista?

- Ahn... Cigarra ou Revista dda Semana?

- Cigarra.

Aqui está.

- Obrigada.

Aí a enfermeira abre a porta e diz:

- O próximo.

E eles nunca mais se vêem.