sábado, 28 de janeiro de 2006

O Sono

Álvaro de Campos

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?, Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!

Sala de Espera

Luis Fernando Verríssimo

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária.

Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu sou antigo. Bom era o barulhinho. Suish-suish. Elas cruzavam as pernas e fazia suish-suish. Eu era doido por um suish-suish.

Ela pensa: cara engraçado. Lendo a revista de cabeça para baixo.

Ele: te arranco a roupa e te beijo toda. Começando pelo pé. Que cena. A enfermeira abre a porta e nos encontra nus sobre o carpete, eu beijando o pé. O que é isso?! Não é o que a senhora está pensando. É que entrou um cisco no olho desta moça e eu estou tentando tirar. Mas o olho é na outra ponta! Eu ia chegar lá. Eu ia chegar lá.

Ela: ele está olhando as minhas pernas por baixo da revista. Vou descruzar as pernas e cruzar de novo. Só para ele aprender.

Ele: ela descruzou e cruzou de novo! Ai meu Deus. Foi pra me matar. Ela sabe que eu estou olhando. Também, a revista está de cabeça pra baixo. E agora? Vou ter que dizer alguma coisa.

Ela: ele até que é simpático, coitado. Grisalho. Distinto. Vai dizer alguma coisa...

Ele: o que é que eu digo? Tenho que fazer alguma referência à revista virada. Não posso deixar que ela me considere um bobo. Não sou um adolescente. Finjo que examino a revista mais de perto, depois digo "Sabe que só agora me dei conta de que estava lendo essa revista de cabeça para baixo? Pensei que fosse em russo." Aí ela ri e eu digo "E essa sua Cruzeiro? Tão antiga que deve estar impressa em pergaminho, é ou não é? Deve ter desenhos infantis do Millôr." Aí riremos os dois, civilizadamente. Falaremos nas eleições e na vida em geral. Afinal, somos duas pessoas normais, reunidas por circunstância numa sala de espera. Conversaremos cordialmente. Aí eu dou um pulo e arranco toda a roupa dela.

Ela: ele vai falar ou não? É do tipo tímido. Vai dizer que tempo, né? A senhora não acha? É do tipo que pergunta "Senhora ou senhorita?" Até que seria diferente. Hoje em dia a maioria já entra rachando... Vamos variar de posição, boneca? Mas espere, nós ainda nem nos conhecemos, não fizemos amor em posição nenhuma! É que eu odeio as preliminares. Esse é diferente. Distinto. Respeitador.

Ele: digo o quê? Tem um assunto óbvio. Estamos os dois esperando a vez num dentista. Já temos alguma coisa em comum. Primeira consulta? Não, não. Sou cliente antiga. Estou no meio do tratamento. Canal? É. E o senhor? Fazendo meu check-up anual. Acho que estou com uma cárie aqui atrás. Quer ver? Com esta luz não sei se... Vamos para o meu apartamento. Lá a luz é melhor. Ou então ela diz pobrezinho, como você deve estar sofrendo. Vem aqui e encosta a cabecinha no meu ombro, vem. Eu dou um beijinho e passa. Olhe, acho que um beijo por fora não adianta. Está doendo muito. Quem sabe com a sua língua...

Ela: ele desistiu de falar. Gosto de homens tímidos. Maduros e tímidos. Ele está se abanando com a revista. Vai falar do tempo. Calor, né? Aí eu digo "É verão". E ele: "É exatamente isso! Como você é perspicaz. Estou com vontade de sair daqui e tomar um chope". "Nem me fale em chope." "Você não gosta de chope?" "Não, é que qualquer coisa gelada me dói a obturação". "Ah, então você está aqui para consultar o dentista, como eu. Que coincidência espantosa! Os dois estamos com calor e concordamos que a causa é o verão. Os dois temos o mesmo dentista. É o destino. Você é a mulher que eu esperava todos estes anos. Posso pedir sua mão em noivado?"

Ele: ela está chegando ao fim da revista. Já passou o crime do Sacopã, as fotos de discos voadores... Acabou! Olhou para mim. Tem que ser agora. Digo: "Você está aqui para limpeza de pernas? Digo, de dentes? Ou para algo mais profundo como uma paixão arrebatadora por pobre de mim?"

Ela: e se eu disser alguma coisa? Estou precisando de alguém estável na minha vida. Alguém grisalho. Esta pode ser a minha grande oportunidade. Se ele disser qualquer coisa, eu dou o bote. "Calor, né?" "Eu também te amo!"

Ele: melhor não dizer nada. Um mulherão desses. Quem sou eu? É muita perna pra mim. Se fosse uma só, mas duas! Esquece, rapaz. Pensa na tua cárie que é melhor. Claro que não faz mal dizer qualquer coisinha. Você vem sempre aqui? Gosto do Roberto Carlos? O que serão os buracos negros? Meu Deus, ela vai falar!

- O senhor podia...

- Não! Quero dizer, sim?

- Me alcançar outra revista?

- Ahn... Cigarra ou Revista dda Semana?

- Cigarra.

Aqui está.

- Obrigada.

Aí a enfermeira abre a porta e diz:

- O próximo.

E eles nunca mais se vêem.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Escuta!

Escuta!
Mayakovsky

Escuta,
se as estrelas estão acesas
significa – que há alguém precisando delas.
Significa – que alguém quer sê-las,
que alguém considera magnífica aquela mancha de pontos.

E exausto,
nos redemoinhos de poeira da tarde,
ele clama por Deus,
temendo estar atrasado.

Às lágrimas,
ele beija a mão firme de Deus
e pede que ele lhe garanta
a certeza de que haverá uma estrela.

Ele jura
que não será capaz de agüentar
aquela provação sem as estrelas.

Mais tarde,
Ele vagueia preocupado,
mas visivelmente calmo.

E para qualquer um que diga:
‘Agora
está tudo bem.
Você tem não mais medo,
não é?’

Escuta,
Se as estrelas estão acesas,
Significa – que há alguém que as necessita.
Significa que é essencial
que toda noite
pelo menos uma estrela deva ascender
sobre o topo do prédio.

1914



ПОСЛУШАЙТЕ!

Послушайте!
Ведь, если звезды зажигают -
значит - это кому-нибудь нужно?
Значит - кто-то хочет, чтобы они были?
Значит
- кто-то называет эти плевочки
жемчужиной?

И, надрываясь/
в метелях полуденной пыли,
врывается к богу,
боится, что опоздал,

плачет,
целует ему жилистую руку,
просит -
чтоб обязательно была звезда! -
клянется
-
не перенесет эту беззвездную муку!

А после
ходит тревожный,
но спокойный наружно.

Говорит кому-то:
"Ведь теперь тебе ничего?
Не страшно?

Да?!"
Послушайте!
Ведь, если звезды
зажигают -
значит - это кому-нибудь нужно?

Значит - это необходимо,
чтобы каждый вечер
над крышами
загоралась хоть одна звезда?!

1914

Listen!

Listen,
if stars are lit
it means - there is someone who needs it.
It means - someone wants them to be,
that someone deems those specks of pit
magnificent.

And overwrought,
in the swirls of afternoon dust,
he bursts in on God,
afraid he might be already late.

In tears,
he kisses God's sinewy hand
and begs him to guarantee
that there will definitely be a star.

He swears
he won't be able to stand
that starless ordeal.

Later,
He wanders around, worried,
but outwardly calm.

And to everyone else, he says:
'Now,
it's all right.
You are no longer afraid,
are you?'

Listen,
if stars are lit,
it means - there is someone who needs it.
It means it is essential
that every evening
at least one star should ascend
over the crest of the buildings.

1914


sábado, 14 de janeiro de 2006

Ninguém Regula a América

O Rappa & Sepultura

Ninguém regula a América
nobody fucks with America

Satélites de cimavigiando todos os atos de rebeldia
MST observado pela CIA
um avião cara-de-paupreso na China
painel de controlecidades sem culpa
na sensação do protocolo de Kioto
carbonizado em plena chuvade armas exportadas
sangrando no dólaro dólar dos outros
coagulado e globalizadonas veias abertas
de outra dívida externa

Satellites from above
controling all the rebel act
nosy plane cought in China
pushing doors in Colombia
carbonized under the rain
globalized bleeding the dollar
under the Wall Street sky
risking everybody's lives

ninguém regula a América
nobody fucks with America

Forçando a porta da Colombia
com uma hipocrisia que viciao intelecto de Brasília
e outras capitaisestreladas deixando a bandeira
de fardasque segue na arrogância
independente de quem for
O W. Bush de plantão
que engatilha um novo missel sem limites
sobre o céu de Wall Street
arriscando a todos
com o medo de perder
mais uma guerra

ninguém regula a América
nobody fucks with America

A ÁRVORE DE NATAL DE CRISTO

Fiodor Dostoiewski

Como sou um romancista, parece que estou imaginando uma história. Digo parece - e sei perfeitamente que imaginei mesmo; mas tenho certeza de que isso aconteceu, não sei onde nem há quanto tempo; e aconteceu justamente na véspera de Natal, nalguma cidade imensa, num dia de frio assassino.
Era uma vez uma criança num porão, um menino de seis anos, ou menos ainda. O pobrezinho acabava de acordar, tremendo de frio sob os farrapos que o cobriam. Quando respirava, uma baforada branca lhe saía pela boca, e ele, sentado no canto da sala, começou a soprar de propósito, para ver a nuvem se mexer. Isso o distraía, mas preferiria comer. Aproximou-se várias vezes do velho colchão de capim, duro e seco como pão de pobre, onde repousava sua mãe doente, com um saco velho como travesseiro. Como ela viera parar ali? Teria de certo chegado de outra cidade e adoecido. A mulher que lhe alugara o porão havia sido presa há dois dias; os outros inquilinos, saído para festejar o Natal. O único que ficara, um trapeiro, há dois dias curtia a bebedeira com que celebrara de antemão o nascimento de Cristo. No outro canto da sala gemia uma octogenária, antiga pajem de crianças, que morria abandonada; não parava de gemer e se lamentar, praguejando contra o garoto, que não ousava aproximar-se. Ele já tentara acordar a mãe várias vezes e no corredor achara bebida, mas nada para comer. A obscuridade aumentava e ninguém vinha acender o fogo. Apalpou o rosto da mãe e ficou surpreso: estava gelada e rígida como uma estátua. "Está fazendo frio", pensou com a mão apoiada no ombro da mãe inerte e assoprou o bafo sobre os dedos para aquecê-los. Pegou então o boné e, evitando fazer barulho, saiu tateando na escuridão, pensando apenas no enorme cachorro que ouvira latir o dia todo, até chegar à rua.
Senhor, que grande cidade! Nunca vira nada assim. Onde ele morava as ruas eram escuras, iluminadas por poucos lampiões e as casas de madeira, baixinhas, ficavam todas fechadas; apenas a noite caía não se encontrava mais viva alma, todos ficavam calafetados dentro de casa e só os cachorros, centenas deles, ganiam ao relento. Mas podiam aquecer-se, davam-lhe de comer... enquanto aqui... Meu Deus! Não acharia nada para comer? E que algazarra, que agitação, que claridade, quanta gente, quantos cavalos e carros... e o frio, que frio! A neblina congela em filetes nas narinas dos cavalos que galopam, com as ferraduras batendo forte nas pedras das ruas, por sobre a neve. Os passantes esbarram um nos outros, empurram-se e - Deus do céu - como lhe dói o estômago vazio e os dedinhos expostos ao frio! Um guarda passa junto dele e se vira para fingir que não o via.
Ainda uma rua: como é larga! Não há dúvida que vai ser esmagado. Todo mundo corre, grita, vai e vem. E a claridade, coisa linda! E o que é isso? Ah! Uma grande vidraça, e por detrás dela um quarto com uma árvore que alcança o teto: é um pinheiro, uma árvore de Natal cheia de luzes e miniaturas de bonecas e cavalinhos. Ali correm crianças bem vestidas que riem, brincam, comem e bebem. Uma menina dança com um menino. Como ela é bonita! Ouve-se uma música através da vidraça. O pequeno olha tudo com espanto e feliz, mesmo lhe doendo os dedos das mãos e dos pés, vermelhos e rígidos. Então ele começa a chorar, as dores aumentam e ele corre para outra vidraça, na qual vê outra árvore enfeitada e ainda mesas cobertas de bolos de todos os tipos, de amêndoas, amarelos, vermelhos, que ricas senhoras distribuem aos convidados. A cada instante a porta se abre para receber homens bem vestidos. Ele caminha para a porta e entra para a sala. Então o expulsam, indignados, aos gritos e gestos agressivos. Uma senhora mete-lhe uma moeda na mão enquanto o empurra para a rua. Que medo! A moeda rola pela escada tilintando pois não conseguira segurá-la, com os dedos imobilizados. Ele se põe a caminhar sem destino, com vontade de chorar e depois corre, soprando o bafo nos dedos. Ao sentir-se tão só e abandonado, deprimido, chora. Mas logo se distrai: Senhor, que será? Quanta gente curiosa, parada, olhando atentamente! Através da vidraça, três bonecos em tamanho natural, vestidos de vermelho e verde, parecem vivos. Sentado, um velho toca violino e os outros dois, de pé, tocam violinos menores, todos meneiam as cabeças em cadência, olham entre si, mexem os lábios e devem falar de verdade, só não se ouve por causa do vidro. O menino pensou até que eram pessoas vivas e se pôs a rir quando percebeu que eram bonecos. Nunca vira bonecos assim, nem de ouvir falar. Eram tão engraçados que calaram o seu pranto.
Mas de repente, alguém o puxou por trás. Era um menino grande e ruim que lhe deu um soco na cabeça, fazendo cair o seu boné. Ele rolou pelo chão e algumas pessoas começaram a gritar. Apavorado levantou-se e correu sem saber para onde. Entrou num porão, que dava num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Ao menos aqui ele não vai me encontrar, está escuro demais."
Encolheu-se todo, sem poder recobrar o fôlego, tanto medo tinha. Subitamente, porque tudo passou num instante, invadiu-o um grande bem estar, as mãos e os pés pararam de doer, e sentiu calor, muito calor, como se estivesse junto de um fogão. Ajeitou-se e logo dormiu. Como era bom dormir ali. "Daqui a pouco vou ver de novo os bonecos", pensou, sorrindo só de lembrar; "poderia jurar que estavam vivos!" Subitamente pareceu-lhe ouvir sua mãe cantar uma antiga canção. "Mamãe, vou dormir. Ah! Como é bom dormir aqui!"
- Vem comigo, vamos ver a Árvore de Natal, meu filho - murmurou uma voz de rara doçura.
Julgou que fosse sua mãe, mas não é ela. Quem então o chamava? Não vê ninguém, mas alguém se abaixou sobre ele, abraçou-o no escuro. Ele estendeu os braços e... de repente - ah! Como tudo ficou resplandescente! Que maravilhosas árvores de Natal! Mas não é um pinheiro, nunca viu árvore assim. Onde estava? Tudo brilha, tudo reluz, e em toda parte vê bonecas - não, não são bonecas, são meninos e meninas, apenas são luminosas. Envolvem-no, fazem roda em torno dele, beijam-no de passagem, seguram-no, levam-no voando; também ele voa e vê sua mãe e lhe sorri:
- Mamãe! Mamãe! Ah! Como está bom aqui!
Abraça os novos companheiros; queria tanto contar-lhes a história dos bonecos detrás da vidraça... Pergunta-lhes quem são, onde estão, rindo e atirando beijos.
- Não sabes? Esta é a Árvore de Natal do Cristo - responderam-lhe. - Todos os anos, neste dia, há uma árvore assim, que Jesus dá às crianças que não tiveram árvores de Natal na terra...
E soube que todas aquelas crianças haviam sido iguais a ele, mas uns morreram gelados nos cestos em que abandonaram nas portas dos palácios de Petersburgo, outros morreram nos asilos das províncias, ou no próprio seio das mães, durante a fome de Samara, ou asfixiados pelo ar contaminado dos cortiços. Mas agora vivem todos como anjos, com o Cristo, e ele os abençoa, num gesto de ternura que se estende às suas pobres mães... Ei-las todas, ao longe, chorando, olhando para os filhos que passam esvoaçando junto delas, beijam-nas de leve, enxugam-lhes as lágrimas pedindo-lhes que não chorem, pois se acham tão bem...
E lá embaixo, na manhã seguinte, os porteiros descobriram o cadáver de um menino gelado perto de um monte de lenha. Procuraram sua mãe... ela morrera um pouco antes dele. Talvez os dois se tenham encontrado no céu...
Por que terei eu imaginado uma história tão pouco razoável, tão pouco nos moldes de escritor sério! E dizer que eu me propunha a contar fatos reais! Mas a questão é justamente essa, sempre me pareceu que tudo isso poderia acontecer, isto é, a parte do porão e do monte de lenha. Quanto à árvore de Natal de Cristo, não poderei afirmar que exista.
Mas, como sou romancista, posso bem imaginar que sim.

DOSTOIEVSKI, Fiodor Mikhailovitch. A árvore de natal de cristo In Maravilhas do conto russo. pp. 89-94, São Paulo Cultrix, 1957