sábado, 29 de abril de 2006

Noite Alucinante

Sempre gostei muito de filmes de terror, por isso foi com muita ansiedade que fui ao cinema assistir ao filme O Albergue. Minha espectativa era a mais alta possível: os posteres eram doentios, o trailler inicial perturbava pela tensão e pela extrema violência das cenas, e, para melhorar, ainda era produzido por Quentin Tarantino. Ou seja, não havia como o filme ser ruim. Noventa minutos após ter entrado no cinema, entretanto, a constatação era outra: fui enganado o filme não só é ruim, como é uma sequência de frustações mal encadeadas.
Numa das poucas cenas divertidas do filme, um dos personagens é partido ao meio por uma motoserra desgovernada, pode parecer sádico, mas nesse exato momento bateu uma saudade danada de uma série de filmes que assisti quando era adolescente. Noite Alucinante é o nome de uma das melhores, senão a melhor, trilogia de terror de todos os tempos. O primeiro da série, A Morte do Demônio (Evil Dead, 1981), é um filme bem seco: agressivo, violento e original em todos os sentidos. Já as continuações conservam o terror, mas adicionam elementos de comédia no estilo de Os Três Patetas. Por isso, os filmes são geralmente classificados como "Terrir".

O héroi, o primeiro e único Ash (Bruce Campbell)

No primeiro filme, um grupo de amigos vai a uma cabana isolada na floresta. Lá eles ouvem uma fita em que um arqueólogo recita passagens do Livro dos Mortos. A evocação traz da floresta as forças do mal e a noite se transforma numa luta sanguinária pela sobrevivência.

O livro dos Mortos, o infernalmente famoso Necronomicon Ex-Mortis

Os cinco minutos iniciais de Uma Noite Alucinante (Evil Dead II – Dead by dawn, 1987) resumem perfeitamente o primeiro filme, de tal forma que nem é preciso assisti-lo para entender essa continuação. Ash (o protagonista da história) e sua namorada, Linda, são atacados por espíritos que eles invocam quando tocam uma fita de audio gravada por um arqueólogo (na qual ele lê vários trechos do Livro dos Mortos). Como é de costume com todas as gravações arqueológicas, ela invoca forças demoníacas sedentas por destruição.

O herói, numa 'discusão amistosa' com sua namorada possuída,
ou melhor, com a cabeça possuída de sua namorada...

Numa cena clássica, a namorada de Ash é possuída e ele é forçado a decapitá-la e enterrá-la na floresta. O mais bacana é que ela ressurge (podre como se estivesse morta há décadas) e logo se reúne com sua estimada cabeça. Ash, que é um namorado carinhoso, prende a cabeça dela numa prensa e a estraçalha com uma serra elétrica, numa sequência de pura poesia em movimento.

Linda, logo após recuperar sua cabeça...

Nesse filme ainda há outras cenas memoráveis, como a mão possuída que se revolta contra seu dono, a “dança” de Linda e quando todos os objetos da sala ficam rindo de Ash. Quem está acostumado com os efeitos especiais de hoje poderá estranhar os do filme e achar tudo muito mal feito. E o pior é que eles são mal-feitos! Mesmo para o padrão da época em que os filmes foram lançados. Entretanto, o efeito é reverso pois as situações tornam-se mais engraçadas e o resultado é único no gênero, muito melhor, por exemplo, do que os recentes filmes de tortura, tipo Jogos Mortais e O Albergue.

O herói, após ser possuído e um pouco antes de perder a mão

O terceiro filme, Noite Alucinante III - O Exército das Trevas (Army of Darkness, 1993), comeca com Ash contando a sua inacreditável história (Noite Aluncinante II). Ele é enviado para a Idade Média, onde é capturado e levado como prisioneiro por um rei. Ash e um outro prisioneiro são jogados num poço cheio de demônios. O primeiro prisioneiro dura poucos segundos antes que seu sangue seja espirrado por todo lugar. Ash é o próximo, mas ele acaba com o demônio e sai do poço. Esse ato heróico dá a Ash algum respeito, daí ele sai em busca do Livro dos Mortos, a única forma de voltar para casa.

Ash, homem, matador de demônios, mito.

Ele o encontra, e para poder retornar à nossa época e afastar de vez a ameaça do Exército da Escuridão precisa recitar uma frase mágica ("clatu, verata, nictu", por coincidência o título desse blog, saiba mais clicando aqui). Em sua infinita ignorância, Ash recita as palavras erradas e invoca o tal Exército da Escuridão, e isso é só o início da diversão.

Capa do dvd do terceiro filme (que, infelizmente,
ainda não foi lançado nesse formato aqui no Brasil)

Os três filmes são imperdíveis e o diretor Sam Raimi, levou muita coisa da série Noite Alucinante para os dois filmes do Homem Aranha (como por exemplo, os movimentos alucinados de câmera junto ao herói). Recentemente, vários sites espalharam uma notícia sobre um quarto filme da série estar em produção, mas até o momento nada foi confirmado. Espero ter contribuído para a elevação cultural da sociedade com esta mini-resenha. Uma dica para o final de semana é procurar por qualquer um desses filmes na locadora mais próxima de sua casa, juntar uma galera bem medrosa, encher um baldão de pipoca e assistir.

É satisfação garantida ou o arrependimento de volta.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

O behaviorismo é um niilismo?

Certas coisas não entram em minha cabeça. Um dia desses parei para pensar a respeito do behaviorismo. Segundo essa teoria, o comportamento dos indivíduos é não apenas observável, como também pode ser medido e controlado, mais ou menos como os fatos e eventos das ciências exatas. O homem é passivo ao ambiente, é bombardeado por estímulos e seu papel se resume a reagir a eles.

O que não entra em minha cabeça é: o homem está morto? Quero dizer, se todas as minhas ações são reações ao ambiente, então minhas ações não partem de mim? Dizer que eu me comporto de acordo com um estimulo é retirar de mim aquilo que me qualifica como pessoa, como individuo. O que dizer então a respeito do inconsciente? Ele não existe?

Sei não, mas acho que não é correto pensar que o homem é passivo diante do ambiente. Fazer isso é atribuir-lhe um status de reagente e anulá-lo enquanto criador em potencial; é acreditar que a existência humana é desprovida de qualquer sentido. O ambiente que vai selecionar a ação humana não foi produzido pela própria ação humana? (ou ao menos por meio da intervenção humana?) Não seria então o caso de uma troca? Um movimento da natureza, do qual o homem não está acima dela, mas é parte dela?

Questões...

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Questões

Quarta-feira, 12 de abril de 2006, 19 horas e 15 minutos, Instituto de Letras, UnB, Brasília/DF, Brasil, América do Sul, continente americano, planeta Terra ( a terceira pelota celeste após o Sol).

Uma multidão de alunos enfurecidos se acotovela diante de uma porta fechada e uma janela semi-aberta. Seus olhos, vazios, distantes e cansados, já não vislumbram qualquer sinal de esperança. Destituídos de vontade própria, eles se contentam em reclamar enquanto aguardam. Afixada à porta encontra-se uma lista. Nela constam os nomes de 130 infelizes, pobres criaturas condenadas a passar a noite clamando pelo nome de um homem: Enrique, El Coordenador.

À direita da janela, outra lista com a relação das disciplinas com vagas disponíveis denuncia os sofrimentos pelos quais aquelas 130 almas estarão condenadas: Psicoparasitologia lingüística, Desaprendizagem Gerativa do Português, Língua Francesa Frita III, Português Extrume-e-tal I, Farsa I e II, etc. Do lado de dentro, funcionários bebem cerveja enquanto assistem avidamente o capítulo da novela.

Diante desse cenário, a 130ª alma da lista observa.

Seus olhos, vazios, distantes e cansados, também já não vislumbram sinal de esperança. A porta se abre, o relógio marca 21h:16min, um dos guardiões de Lúcif..., quer dizer, Enrique chama o próximo que seria atendido, é o felizardo de nº 09!

O 130º infeliz fecha os olhos (aqueles que estão vazios, distantes e cansados, e que já não vislumbram nenhum sinal de esperança), e se deixa levar por um turbilhão de pensamentos:

Por que a vida não pode mais ser simples como quando eu era criança?
O que aconteceu comigo?
Onde está o menino que fui?
Vive em mim ou desapareceu de vez?
Como pude sacanear aquele carinha destemido e cheio de planos que fui um dia?
Quando minha infância se foi por que cargas d’água eu não a acompanhei?
O que aconteceu com o Kichute, a Conga e o Bamba?
E com o Falcon?
Por que não consigo me lembrar do rosto de pessoas que foram importantes em pontos cruciais de minha vida?
Será que existe vida após a morte?
Se não existe vida após a morte, porque nos privamos de viver a vida em toda a sua potencialidade?
Será que existe vida em outro planeta?
Se existe, por que vim nascer justo neste planeta?
Será que lá também tem fila?
Tem coisa mais desanimadora na vida que ficar numa fila sem fim?
Tem coisa mais desanimadora na vida que ficar numa fila sem fim, se você sabe que o que você realmente quer não pode ser atendido?
Quem sabe o que realmente se quer?
A quem eu dirijo estas perguntas?

Tomado por um momentâneo lapso de lucidez, o 130º condenado, abriu os olhos (que, de repente, não estavam mais tão vazios, distantes e cansados), olhou ao redor e se despediu dos demais. Jogou fora sua folhinha de inclusão de disciplinas e foi viver.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Lista de pedidos (Wishlist)

Pearl Jam, Yield

Queria ser uma bomba de nêutrons,
ao menos uma vez eu poderia explodir.
Queria ser um sacrifício
que de alguma forma conseguisse sobreviver.
Queira ser o enfeite sentimental que você pendura,
A árvore de Natal,
eu queria ser a estrela que fica no topo,

Queria ser a prova,
Queria ser o motivo
para cinqüenta milhões de mãos
levantadas e abertas em direção ao céu

Queria ser um marinheiro
com alguém esperando por mim
Queria ser tão sortudo,
tão sortudo como eu.

Queria ser um mensageiro,
e que todas as noticias fossem boas
Queria ser a lua cheia
iluminando o capô do seu carro.
Queria ser um alienígena,

em casa atrás do sol,

Queria ser a lembrancinha
que você guarda com a chave da sua casa.
Queria ser o pedal do freio que você confia.
Queria ser o verbo confiar,
e jamais te desapontar.

Queria ser a canção de rádio,
aquela que você aumenta o volume,
Queria...

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Casamento

Geralmente quando se pergunta a alguém porque ele/ela vai se casar, a resposta nem sempre (ou quase nunca) é porque se ama o(a) parceiro(a). Na maioria dos casos os motivos são outros: para não ficar sozinho(a); porque faz muito tempo que se está namorando e já chegou a hora de partir para algo definitivo; porque todos de sua idade já se casaram, etc.. Excluindo-se a resposta padrão e unânime (e aqui não interessa o grau de veracidade) de que o motivo da união foi o amor, um dos principais motivos é o medo de ficar só.

Visto assim, o casamento funcionaria como uma espécie de cura para a solidão e a sensação de vazio. O segundo maior motivo é o desejo de construir um lar que represente conforto e segurança e, em terceiro lugar, estão as pessoas que se casaram porque viram que os outros a sua volta também se casaram.

Com razões tão vazias é muito provável que esses casamentos estejam desfeitos em alguns anos. Talvez seja um sinal dos tempos, ou talvez seja pelo fato de eu andar muito amargo ultimamente, mas acredito que a motivação e os requisitos para que um casamento dê certo mudaram muito. Houve um tempo em que as juras de amor eterno eram a motivação, quase exclusiva, para sustentar as expectativas do sucesso matrimonial, hoje fala-se em “afinidade”, e é aí que está o grande problema, na minha opinião, o matrimônio é uma espécie de despersonalização.
“Casar é conjugar e reside aí o fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, duas individualidades.”. Em outras palavras, isso equivale a anular dois sujeitos, com visões de mundo, histórias e projetos de vida diferentes numa única identidade conjugal. Isso sem falar nas concessões. No casamento tradicional (e durável), é fundamental que um saiba da vida do outro. Não só da vida, mas dos sentimentos, carências, conflitos... Há a necessidade de conhecer-se e ao outro... Ou seja, considerando-se que o motivo do casamento não foi o amor, é um preço muito alto a se pagar só para não ficar sozinho.

domingo, 2 de abril de 2006

Confissão

charles bukowski

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na
cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas
as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram
coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que
sempre
tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

Fonte: Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski, com tradução de Jorge Wanderley, pela editora Bertrand Brasil, edição de 2003.