domingo, 28 de maio de 2006

Conhecer-se é errar

Fernando Pessoa

O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei». O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.

Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse «Conhece-te» propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande, que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registo consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica das sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.

Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isto que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.

Bernardo Guimarães, in 'O Livro do Desassossego'.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Existencialismo I

ou O estrago causado ao pensamento em decorrência da falta de Fanta Laranja

A abstinência de Fanta Laranja no meu sistema nervoso tem feito um estrago grande em minha sanidade*. Por isso, e talvez como forma de catarse, resolvi registrar mais uma vez meus devaneios aqui. Tenho pensado muito a respeito do existencialismo, principalmente sobre a questão da responsabilidade pelas escolhas e a sua relação com o que definimos por 'destino'.

Acho que estamos perdendo as virtudes de vivermos apaixonadamente; de assumirmos a responsabilidade por quem somos, de tentarmos realizar algo e nos sentirmos bem em relação à vida. O existencialismo é, às vezes, visto como uma filosofia do desespero, mas eu penso que é o contrário. O que ele nos ensina não é que deve existir um sentimento de angústia pela vida, mas sim que devemos encará-la como se ela fosse uma obra aberta, pronta para ser criada e, se preciso, redefinida.

De acordo com Sartre, cada escolha carrega consigo uma responsabilidade. Se escolho ficar em casa dormindo ao invés de ir trabalhar, falar alguma coisa ou escrever nesse blog, tenho que ter consciência de que qualquer conseqüência desses atos terá sido resultado de minha própria escolha. E ao colocar cada escolha em ação provoco mudanças no mundo que não podem ser desfeitas. Não posso, segundo o existencialismo, atribuir a responsabilidade por estes atos a nenhuma força externa, ao destino ou a Deus. A essência da responsabilidade segundo os existencialistas é que eu, por minha vontade e escolha ajo no mundo e afeto o mundo todo. É uma responsabilidade da qual não posso fugir.

Sempre tenho uma incômoda sensação de que algo essencial está sendo deixado de fora do modo como vivemos (ou pelo menos do modo como vivo). Quanto mais se fala sobre o ser humano como um ser social ou como fragmentado ou marginalizado abre-se todo um novo universo de desculpas. E esse talvez seja o ponto: por que sempre complicamos e criamos desculpas? Por que as decisões que tomamos têm que ser influenciadas pelo Outro?

Quando Sartre fala de responsabilidade, não é abstrato. Não se trata do tipo de 'eu' ou de 'alma' de que falam as religiões. É algo concreto. Somos nós, falando, tomando decisões e assumindo as conseqüências. Acho que a mensagem é que não devemos jamais nos eximir da responsabilidade com nós mesmos, e nos vermos como vítimas de várias forças.

Quem nós somos é sempre uma decisão nossa.



*Teria a Coca-cola tido a audácia de cancelar a produção desse doce e alaranjado líquido sem consultar a opinião de seu maior consumidor [ou seja, eu]?

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Apenas um soneto

Mudam-se os tempos, muda-se a verdade,
Muda-se o caráter, muda-se a confiança;
Tudo no mundo tende à mudança,
Mas algo não muda desde a antigüidade,

Aqueles que empregam suas habilidades,
para semear a desconfiança;
Para aos corruptos oferecer aliança,
e tornar a justiça, se já houve, em saudades.

'Artistas' que empregam seu canto,
se é se pode dizer assim de tal zurraria,
para vestir um ladrão de santo.

E é besteira acreditar que tudo mudará um dia.
E é daí que vem o motivo par'o pranto:
'Arte' alienada + mídia é igual a acefalia.

domingo, 7 de maio de 2006

Waking life

Cenas do filme Waking life
Você alguma vez já se questionou se a realidade tal qual a conhecemos é real mesmo? Se aquilo que concebemos como real é o que percebemos com nossos sentidos (visão, olfato, sons, etc) e não com nossa razão, então como podemos ter certeza de que o que percebemos é verdadeiro? Como saber se nossos sentidos não nos enganam? E mais ainda, há pessoas que dizem sonhar muito e outras que reclamam por não sonhar nada. Quer lembrem-se ou não dos sonhos que tiveram, já foi provado que todos os seres humanos sonham, e é aqui que está o ponto a que quero chegar: para o cérebro não faz diferença se é sonho ou realidade (o que explica por que nossas recordações das experiências que registramos dormindo são tão vivas). Mas se o que entendemos como realidade por sua vez for apenas uma convenção de nosso cérebro, então como diferenciar daquilo que é apreendido por nossos sentidos?

Assisti um filme hoje (o título é o mesmo desse texto) que me fez mais uma vez questionar a veracidade daquilo que considero realidade. Na trama, após não conseguir acordar de um sonho, um rapaz passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário. Uma das questões levantadas pelo filme é: estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes enquanto sonhamos? Quando paro para pensar a respeito, desconfio, por exemplo, que talvez os loucos sejam os únicos que, por terem perdido essa noção da linha tênue que separa a realidade da ilusão (ou não-realidade), descobriram a falha na matrix e enxergam as coisas como elas realmente são. Na falta de explicação melhor, fico com as palavras do mestre Poe: “O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?”.