segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Viagem a Darjeeling

Há algo que distancia os filmes do diretor Wes Anderson dos de outros cineastas; uma espécie de meditação romântica sobre as desagradáveis, mas inevitáveis e necessárias, experiências de amadurecimento (que, no fundo, são o que proporciona um senso de perspectiva e conforto mais tarde na vida). É a mesma sensação que tive, por exemplo, quando li “O apanhador no campo de centeio”, do Salinger.

Enquanto a maioria dos cineastas realiza filmes com uma ou duas cenas memoráveis, alguns diretores, como Anderson, parecem querer que cada cena seja um grande momento – uma combinação perfeita de música, imagem e atuação que encapsula uma certa emoção ou estado de ser.

Em "Viagem a Darjeeling" (The Darjeeling Limited), três irmãos embarcam numa viagem de trem pela Índia. Eles não se falavam desde o funeral do pai e cada um deles traz consigo um problema: Francis é suicida; Peter está com problemas no casamento; e Jack está se recuperando de uma desilusão amorosa. Ao longo da jornada, eles brigam, são expulsos do trem, procuram pela mãe, que os abandonou, e tentam encontrar purificação espiritual. Ao final do filme fica a sensação de que a verdadeira viagem era para aprender a apreciar os prazeres simples que vêm quando se deixa a vida acontecer, assim como no livro do Salinger.

O filme é sobre estar consciente dos perigos de ceder aos mais íntimos impulsos, de que mesmo num ambiente cuidadosamente construído as coisas podem desmoronar e, mais que isso, de que no fundo todas as certezas que se tem não passam de ilusão. O filme consegue transmitir um sentimento de família, não sei se no sentido estrito, mas na forma como seus membros possam interagir, o modo distinto de como as pessoas demonstram amor e preocupação e o desejo de manter essas conexões.

Em determinado ponto da narrativa, o trem em que as personagens estão se perde. A idéia de um trem que se perde dos trilhos é uma boa metáfora para a situação da família Whitman. Francis, o irmão mais velho, cujo rosto foi destruido numa tentativa de suicídio, se pergunta em que ponto da vida seu caminho e o de seus irmãos se distanciaram (uma vez que partiram dos mesmos trilhos...) e se algum dia eles seguirão na mesma direção.

O modo como Anderson filma as seqüências, permite que algumas cenas corram sem edição e que os três irmãos sejam enquadrados num mesmo quadro. A imagem reflete o espaço claustrofóbico do trem, mas também força os irmãos a ficaram próximos uns dos outros.

O filme tem uma bela fotografia e muito do humor vem do modo como as personagens interagem com o local exótico. Assim como nos outros filmes do diretor, a trilha sonora é composta por uma seleção bastante eclética, com músicas do The Kinks, Rolling Stones, Joe Dassin, Peter Sarstedt e várias faixas retiradas de filmes indianos. Fechando para balanço, na minha opinião, é o melhor filme de 2007.


sábado, 8 de dezembro de 2007

Clatu, verata, nictu?

As vezes me perguntam de onde tirei o nome desse blog. Como a explicação foi dada apenas no início dos tempos, no longíquo ano de 2004, e tendo em vista que com o advento do Youtube os argumentos agora podem ser ratificados com som e imagem, acho que está na hora de desvendar o segredo.



"Clatu, verata, nictu" (ou ainda, "Klatu, ferata, nictu", ou, como é mais próximo do original, "Klaatu, barada, nikto") é uma expressão que surgiu no filme de ficção cientítica da Guerra fria, "O dia em que a Terra parou" (The day the Earth stood still, 1951). A frase era usada para impedir que um robô, chamado Gort, destruísse a Terra: "Gort! Clatu, verata, nictu!".

Embora algumas pessoas acreditem que é uma expressão em latim, na verdade trata-se apenas de uma idiossincrasia. Tanto é assim, que não há uma tradução coerente, ao menos não que eu conheça.

"Clatu" é o nome do alienígena humanóide do filme. Em russo, a palavra "barada" (escrita "borodá"/"борода", mas pronunciada "baradá") significa barba e "nikto" (никто) significa "ninguém". Em resumo, fora do contexto do filme não quer dizer nada. Apesar disso, ao longo do tempo a expressão foi usada repetidamente na cultura popular.

Os membros da banda Creedence Clearwater Revival eram fãs do filme e durante sua turnê de 1969 inscreveram as palavras "Klaatu barada nikkto" em todos os seus equipamentos e intrumentos. O robô Gort faz uma minúscula aparição na capa do último álbum em estúdio deles (Mardi Gras).


No filme "Encontros imediatos do terceiro grau" (Close Encounters of the Third Kind, 1977) há uma tomada aérea de uma área subdividida em escritórios com várias pessoas tentando contactar alienígenas. Numa das paredes a frase aparece escrita num grande banner numa das paredes.

No filme "O retorno de Jedi", dois dos guardas de Jabba são chamados Klaatu (um membro da raça nikto) e Barada (um alienigena da espécie Klatooniana).


Por último, mas mais importante, no filme Noite alucinante 3 - O exército das trevas (Evil dead 3 - Army of darkness), o protagonista, Ash, precisa recitar a frase "Clatu, verata, nictu" para afastar o mal e recuperar o Necronomicon, o livro dos mortos. O herói, em sua infinita ignorância, se esquece das palavras e balburcia algo como "Clatu, verata... necktie?" e assim desperta uma horda de zumbis malígnos.





Aí, você me pergunta novamente, "e o que é que isso tem a ver isso com o porquê do título desse blog?" e mais uma vez e eu lhe repondo: nada! Na falta de um título melhor resolvi puxar pela memória e recitar as palavras esquecidas num dos meus filmes preferidos, talvez como uma forma de evitar que um exército de zumbis começase seu domínio da internet por este humilde diário eletrônico.

domingo, 25 de novembro de 2007

Nunca ninguém sabe

Mário Quintana

Nunca ninguém sabe se estou
louco para rir ou para chorar...
Por isso o meu verso tem
esse quase imperceptível tremor...
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso
Ninguém por ninguém!
Por nenhum amor...
A vida continua, indiferente!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Ai se sêsse

Zé da Luz


Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém se acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

domingo, 18 de novembro de 2007

Einmal nahm ich

Rainer Maria Rilke

Einmal nahm ich zwischen meine Hände
dein Gesicht. Der Mond fiel darauf ein.
Unbegreiflichster der Gegenstände
unter überfließendem Gewein.

Wie ein williges, das still besteht,
beinah war es wie ein Ding zu halten.
Und doch war kein Wesen in der kalten
Nacht, das mir unendlicher entgeht.

O da strömen wir zu diesen Stellen,
drängen in die kleine Oberfläche
alle Wellen unsres Herzens,
Lust und Schwäche,
und wem halten wir sie schließlich hin?

Ach dem Fremden, der uns missverstanden,
ach dem andern, den wir niemals fanden,
denen Knechten, die uns banden,
Frühlingswinden, die damit entschwanden,
und der Stille, der Verliererin


Uma vez tomei
Rainer Maria Rilke

Uma vez tomei entre minhas mãos
teu rosto. Sobre ele caia a lua.
O mais fantástico dos objetos
submerso em pranto.

Como algo dócil, que existe em silêncio,
contê-lo era quase como que um ardil.
E, ainda assim, não havia o que na
fria noite mais infinitamente me escapava.

Oh, porque desembocamos nestes lugares,
represando na pequena superfície
todas as ondas de nossos corações,
prazer e fraqueza,
e a quem ofereceremos tudo ao final?

Ah, aos estranhos, que nos mal entenderam,
ah, aos outros, que jamais encontramos,
aos servos, que nos ataram,
aos ventos de primavera, que se desvaneceram,
e ao sossego, o perdedor.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Odeio as manhãs

Odeio as manhãs. Por mim não dormiria jamais. À noite, a mente elabora um fluxo descontínuo e fragmentado de idéias, sentimentos e frustrações e transforma tudo em pesadelo ou sonho. Aí chega a manhã, e tudo ressurge como uma mancha de óleo, como uma nuvem sufocante de gás. E a realidade, é apenas tristemente, cruelmente, malditamente a realidade.

sábado, 10 de novembro de 2007

A dream

Edgar Allan Poe

In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed--
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?

That holy dream--that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.

What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar--
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?

Um sonho
Edgar Allan Poe

Em visões da noite sombria
Sonhei uma alegria partida –
Mas um sonho acordado de vida e alegria
Deixou em meu coração uma ferida.

Ah! O que não é um sonho diurno
Para aquele cujo olhar arremessa
Em coisas ao seu redor como um raio
Que ao passado regressa?

Que sonho sagrado – que sonho sagrado,
Enquanto o mundo só reprovação via,
Encorajava-me como um raio amado
Um solitário espírito guia.

O que através daquela luz, através da noite e da tempestade,
Tão trêmula lá distante –
O que poderia ser mais puramente brilhante
Na diurna estrela da verdade?

domingo, 4 de novembro de 2007

Noam Chomsky vs Michel Foucault

Justiça vs Poder



Chomsky

"Toda forma de coerção ou repressão, toda forma de controle autocrático de alguns domínios da existência, digamos, a propriedade privada de capital de alguns aspectos da vida humana como, por exemplo, restrições autocráticas sobre algumas áreas de atividade humana, podem ser justificadas, de modo algum, apenas em termos da necessidade de subsistência, ou da necessidade de sobrevivência, ou da necessidade de defesa contra algum destino terrível ou algo do tipo. Isso não pode ser justificado intrinsecamente. Pelo contrário deve ser superado e eliminado”.


Foucault

"Sabe-se que a universidade e, de modo geral, todos os sistemas educacionais, que aparentam simplesmente disseminar o conhecimento, são feitos para manter uma certa classe social no poder; e para excluir os instrumentos de poder de outras classes sociais".

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A maravilhosa cozinha existencialista

No último fim-de-semana, a Equipe PROTONS foi passar o domingo descansando numa velha casa abandonada desde o século XIX, que fica em algum lugar esquecido na estrada w3 entre as quadras 710 e 715. Lá, nós tivemos a sorte de descobrir diários perdidos de existencialistas franceses do século XIX. Nesses livros estão curiosas associações entre dor e sabor, que perturbará todas as definições metafísicas e conceitos holísticos dos que achavam que uma macarronada não tem nada de existencialista. Para quem se desespera com a questão de quem veio antes, o ovo ou a galinha, haverá de concordar que, pelo menos, num frango assado com farofa de ovos, os dois vão ao mesmo tempo bucho a dentro...
por Bruno Cavalcanti


Diário de Vitor Sodré, existencialista francês, 1891:

15 de janeiro: "Aqui estou eu, preso em mim mesmo, vendo da janela do meu quarto imundo o amontoado de carros indo e vindo, perdidos em sua própria insignificância... Olho para o relógio e concluo ser a hora do almoço... Qual o significado desse momento, tão definitivo na vida do homem comum?... Minha alma agoniza, eu preciso descobrir... Prepararei uma sopa de batatas e chegarei a algum lugar..."

"Coloquei quantas batatas eu quis numa panela. Coloquei água, mas só a quantidade necessária para que as batatas ficassem quase submersas, apenas com uma pequena parte fora d'água, para que se sintam sufocadas, angustiadas..."

"Levei a panela para o lugar mais frio da casa. Coloquei uma cadeira de frente para ela e fique sentado para sempre... Pensei sobre o quanto estou faminto, mas que a escolha é minha de continuar ou não assim. Quando anoitecer, não acenderei as luzes..."

16 de janeiro: (notas de rodapé) "...Como poderei saber ao certo se a batata escolheu ou não ser comida por mim? Isso me deixa mais e mais frustrado..."

"...Sei que aquela panela não representa por si só todas as angústias do homem desamparado num mundo sem Deus. Mas como posso demonstrar isso apenas com carboidratos?..."

17 de janeiro: "Acordei hoje decidido a tirar interpretações mais radicais sobre a sopa, numa tentativa de, talvez, expressar o vácuo existencial entre a fome e a dor. Estou bastante encorajado com os resultados, mas minha jornada ainda é longa..."

"Verduras são vitaminas, que representam o prazer do homem, o supérfluo, a negação. Pode ser que a mistura entre alface, coentro e repolho com a batata, resulte no suicídio da sopa... Mas de qualquer forma, o risco é meu..."

31 de janeiro: "Me tranquei no banheiro por quatorze dias por arrependimento, me negando a encarar qualquer um..."

9 de fevereiro: "...Venho colocando mais e mais batatas na sopa, dia após dia, como soldados marchando para o mar revolto e imprevisível. Melancólico, olho para as batatas, mas elas não me olham de volta... Preciso prová-las, mas não consigo! Apago as luzes, mas não adianta!... Preciso de mais força de vontade... Leio algumas passagens de Kierkegaard e estou finalmente pronto! Droga, tentei criar uma sopa que expressasse o sentido da existência, mas em vez disso, tem gosto de batata!... O que Albert Camus faria? Talvez um pouco de cebola..."

"É a hora do julgamento dos valores da sopa. Pus ela para cozinhar... As batatas pulam angustiadas enquanto a água ferve. Chego à conclusão de que a batata, mesmo livre, é vitimada pelo ambiente e sofre por isso. Estou muito feliz... Estou tão feliz que estou quase surtando!!!... Vou voltar pro banheiro..."

13 de fevereiro: "...Faz quatro dias que estou no banheiro, e já caíram 8.596 gotas de água na pia. Tudo é mesmo tão efêmero!... Ao sair do banheiro, percebo que o fogo do fogão (no caso, o fogão é a existência e o fogo é a essência) se extinguiu. A água evaporou da panela, embora, de gota em gota, continue existindo da torneira até a pia. Quão subjetivo é tudo isso! Estou tonto, acho que vou desmaiar..."

"Preciso colocar mais sal para poder chegar à definição perfeita do sentimento do vocábulo 'sopa'. O que ele representa? O quanto ele vale? Como ele se sente? Diabos, o que importa, já sei que a sopa vai viver e morrer sozinha!..."

14 de fevereiro: "As coisas não aconteceram como eu esperava! A sopa está cheirando mal, talvez tenha estragado... Afinal, faz um mês e meio que a venho preparando... Enfim, que seja! Não é este mesmo o fim de todas as coisas?..."

Fonte: http://www.protons.com.br/megazine/Xreceitas-existen.html

sábado, 20 de outubro de 2007

Existencialismo II

O homem é o único animal que se define a si próprio através do ato de viver. Em outras palavras, o homem (ou a mulher) primeiro existe, depois o indivíduo usa o tempo de sua vida para mudar a sua essência. O sentido da vida só é dado com a vivência. A busca do sentido da vida no existencialismo é a busca por si próprio.

Diferente do que muitos pensam, o existencialismo não é um tema sombrio ou deprimente. O existencialismo é sobre a vida. Mas não a vida como esta é tratada por Nietzsche ou Schopenhauer, que apesar de terem focalizado parte de suas reflexões para questões tipicamente existencialistas, o fizeram sem abandonar suas respectivas linhas de pensamento, ou seja, suas reflexões direcionavam-se para a vida e não para existência em si. A questão primordial é: em que lugar de sua filosofia o filósofo trata da existência? Ou ainda, ela tem prioridade?

Os filósofos da existência empenham-se em pensar o individuo real e contraditório a partir de sua existência cotidiana sem qualquer relevo especial. Some-se a isso fato de as filosofias da existência serem anti-naturalistas: existir é a condição/situação na qual nos encontramos desde sempre, não é uma natureza. O humano é, portanto, não-definível.

Nietzsche criticou a moral socrática, mas ao fazer isso, não considerou a singularidade de Sócrates como indivíduo, como Kierkegaard, por exemplo, o fez. Nietzsche considerou Sócrates e Cristo como figuras históricas (seus conceitos, o que representam) e não como singulares singularíssimos. O ponto é que tanto Schopenhauer como Nietzsche tratavam o Ser e seus estados de maneira totalizadora e não singular. As filosofias não existenciais podem dar respostas objetivas para o mundo, o existencialismo, não. Ele coloca o acento na subjetividade, no ponto de vista interior.

As filosofias existencialistas consideram o homem como um ser finito, continuamente confrontado com situações problemáticas e absurdas. O que interessa ao existencialismo é o homem em sua singularidade. No centro do pensamento existencialista encontra-se o homem singular e finito que faz escolhas e que lida com a situação de estar jogado no mundo.

domingo, 7 de outubro de 2007

Lösch mir die Augen aus

Rainer Maria Rilke

Lösch mir die Augen aus: ich kann dich sehen.
Wirf mir die Ohren zu: ich kann dich hören.
Und ohne Füße kann ich zu dir gehen.
Und ohne Mund noch kann ich dich beschwören.
Brich mir die Arme ab, ich fasse dich mit meinem Herzen,
Wie mit einer Hand.
Halt mir das Herz zu, und mein Hirn wir schlagen.
Und wirst du in mein Hirn den Brand,
so werd' ich dich auf meinem Blute tragen.

Apaga-me os olhos

Apaga-me os olhos: eu poderei te ver.
Tapa-me os ouvidos: eu poderei te ouvir.
E sem pés poderei até a ti chegar.
E sem boca ainda poderei te invocar.
Rompa-me os braços, eu te abraçarei com meu coração,
assim como com uma mão.
Pára meu coração, e meu cérebro pulsará.
E se tu incendeias meu cérebro,
levar-te-ei em meu sangue.

sábado, 6 de outubro de 2007

Apesar de tudo

É preciso tentar,
apesar das pessoas,
apesar das escolhas,

apesar dos erros,
apesar do cansaço,
apesar da sorte,
apesar da falta de sorte.

É preciso viver,

apesar das pessoas,
apesar da seca,
apesar do semestre,
apesar dos impostos,
apesar da morte,
apesar da vida.

É preciso amar,
apesar do egoísmo,
apesar da distância,
apesar do medo,
apesar do ódio,
apesar das pessoas,
principalmente das pessoas,
principalmente as pessoas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Nascere è un fatto

Luigi Pirandello

Nascere è un fatto. Nascere in un tempo anziché in un altro ve l'ho già detto; e da questo o da quel padre, e in questa o quella condizione; nascere maschio o femmina; in Lapponia o nel centro dell'Africa; e bello o brutto; con la gobba o senza gobba: fatti. E anche se perdete un occhio, è un fatto e potete anche perderli tutti e due, e se siete pittore è il peggior fatto che vi possa capitare.
Tempo, spazio, necessità. Sorte, fortuna, casi: trappole tutte della vita. Volete essere? C'è questo. In astratto non si è. Bisogna che s’intrappoli l'essere in una forma, e per alcun tempo si finisca in essa, qua o là, cosí o cosí. E ogni cosa, finché dura, porta con sé la pena della sua forma, la pena d'esser cosí e di non poter piú essere altrimenti. Quello sbiobbo là, pare una burla, uno scherzo compatibile sí e no per un minuto solo e poi basta; poi dritto, su, svelto, agile, alto.... ma che! sempre cosí, per tutta la vita che è una sola; e bisogna che si rassegni a passarla tutta tutta cosí.
E come le forme, gli atti.
Quando un atto è compiuto, è quello; non si cangia piú. Quando uno, comunque, abbia agito, anche senza che poi si senta e si ritrovi negli atti compiuti, ciò che ha fatto, resta: come una prigione per lui. Se avete preso moglie, o anche materialmente, se avete rubato e siete stato scoperto; se avete ucciso, come spire e tentacoli vi avviluppano le conseguenze delle vostre azioni; e vi grava sopra, attorno, come un'aria densa, irrespirabile, la responsabilità che per quelle azioni e le conseguenze di esse, non volute o non previste, vi siete assunta. E come potete piú liberarvi?
Già. Ma che intendete dire con questo? Che gli atti come le forme determinano la realtà mia o la vostra? E come? perché? Che siano una prigione, nessuno può negare. Ma se volete affermar questo soltanto, state in guardia che non affermate nulla contro di me, perché io dico appunto e sostengo anzi questo che sono una prigione e la piú ingiusta che si possa immaginare.

In: Uno, nessuno e centomila

sábado, 22 de setembro de 2007

Sono cent'anni

Nazim Hikmet

Sono cent'anni che non ho visto il suo viso
che non ho passato il braccio
attorno alla sua vita
che non mi son fermato nei suoi occhi
che non ho interrogato
la chiarità del suo pensiero
che non ho toccato
il calore del suo ventre

eravamo sullo stesso ramo insieme
eravamo sullo stesso ramo
caduti dallo stesso ramo ci siamo separati

e tra noi il tempo è di cent'anni
di cent'anni la strada
e da cent'anni nella penombra
corro dietro a te.

Cem anos

Faz cem anos que não vejo sua face
que não passo o braço
em torno de sua vida
que não me fixo nos seus olhos
que não interrogo
a claridade do seu pensamento
que não toco
o calor do seu ventre

estávamos juntos no mesmo ramo
estávamos no mesmo ramo
caídos do mesmo ramo estamos separados

e entre nós o tempo é de cem anos
de cem anos a estrada
e há cem anos na penumbra
corro atrás de ti.

Il più bello dei mari

Nazim Hikmet

Il più bello dei mari
è quello che non navigammo.
Il più bello dei nostri figli
non è ancora cresciuto.

I più belli dei nostri giorni
non li abbiamo ancora vissuti.

E quello
che vorrei dirti di più bello
non te l'ho ancora detto.

O mais belo dos mares

O mais belo dos mares
é aquele que não navegamos.
O mais belo dos nossos filhos
ainda não cresceu.

Os mais belos dos nossos dias
ainda não vivemos.

E aquilo
que queria dizer-te de mais belo
ainda não te disse.

sábado, 15 de setembro de 2007

Paciência

Rainer Maria Rilke

Habe Geduld
gegen alles Ungelöste in deinem Herzen
und versuche,
die Fragen selbst lieb zu haben,
wie verschlossene Stuben oder ein neues Buch,
das in fremder Sprache geschrieben ist.
Forsche nicht nach Antworten,
die dir nicht gegeben sind,
weil du sie nicht leben kannst.
Und darum handelt es sich doch:
alles zu leben.
Lebe jetzt die Fragen!
Vielleicht lebst du dann eines neuen Tages,
ohne es zu merken,
in die Antwort hinein.

Tem paciência
com tudo não resolvido em teu coração
e tenta
amar as perguntas em ti
como se fossem quartos trancados ou
um livro novo escrito numa língua estrangeira.
Não busque as respostas
que não te podem ser dadas
porque com elas tu não poderás viver.
E por isso, trata-te de viver tudo.
Vive as perguntas agora!
Talvez te seja dado,
sem que percebas,
de viver até um longínquo dia
em que terás a resposta em ti.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Liebes-Lied

Rainer Maria Rilke

Wie soll ich meine Seele halten, daß
sie nicht an deine rührt? Wie soll ich sie
hinheben über dich zu andern Dingen?
Ach gerne möcht ich sie bei irgendwas
Verlorenem im Dunkel unterbringen
an einer fremden stillen Stelle, die
nicht weiterschwingt, wenn deine Tiefen schwingen.
Doch alles, was uns anrührt, dich und mich,
nimmt uns zusammen wie ein Bogenstrich,
der aus zwei Saiten eine Stimme zieht.
Auf welches Instrument sind wir gespannt?
Und welcher Geiger hat uns in der Hand?
O süßes Lied.

Canção de amor

Como posso conter minha alma,
para que ela não toque a tua?
Como posso elevá-la sobre ti
acima de todas as outras coisas?
Ah, eu gostaria tanto de te repousar
entre objetos há muito perdidos na escuridão,
abrigada num lugar desconhecido,
onde permanecesses imóvel
enquanto tuas entranhas vibrassem.
Mas tudo o que nos toca,
a ti e a mim,
nos une como um golpe de um arco,
que de duas cordas de um violino tira uma só voz.
A que instrumento estamos presos?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.

sábado, 7 de julho de 2007

Vida?

homem, cama, relógio
homem, cama, parede
homem, cama, relógio
roupa, carro, sucede

homem, engarrafamento, gente
atraso, prova, estresse
almoço, relógio, gente
trabalho, gente e estresse.

homem, mulher, bar, bebida
homem, mulher, olho, mão
boca, lingua, carro e casa
sala, quarto, roupa

então

homem, mulher, amor, promessa
homem, mulher, carta, flor
sal, tempo, sim, igreja
toalha, escova, parto, dor

homem, mulher, filhos, trabalho
homem, mulher, tempo, não
final de semana, casa, (sogra)
final de semana, televisão

homem, mulher, outro, outra
homem, mulher, tempo, sal
olho, nariz, batom, perfume
grito, tapa, lágrima, (final)

homem, mulher, tempo, nada
homem, mulher, desilusão
homem, mulher
final de semana
bar
bebida.

sábado, 2 de junho de 2007

Capítulo 6: o boletim da 5º série

CENTRO INTERGALÁCTICO DE ENSINO

BOLETIM ESCOLAR

ESTUDANTE: Lobo
SÉRIE: 5ª
PROFESSOR: qual é o nome dele mesmo?



Capítulo 5: o boletim da 4º série

CENTRO INTERGALÁCTICO DE ENSINO

BOLETIM ESCOLAR

ESTUDANTE: Lobo
SÉRIE:
PROFESSOR: E. Tribb




OPORTUNIDADES PROFISSIONAIS:
nenhuma, a menos que exista, em algum lugar do universo, um mercado para a imposição de dor, lesão e morte. Lobo tem grande necessidade de auxílio – embora não tanto, eu suspeito, quanto Czarnia.

domingo, 27 de maio de 2007

Capítulo 4: heavy metal como fator no desenvolvimento do psicopata

Como os czarnianos nunca tiveram interesse na música denominada “Rock”, podemos deduzir que o primeiro contato de Lobo com o gênero se deu após o misterioso desaparecimento de sua babá. Segundo uma listagem compilada naquela época, o rádio da mulher também havia desaparecido.

O primeiro pedido legítimo de Lobo, ao dois anos de idade, foi divulgado um mês depois, em um programa transmitido pela estação pirata Rock Cósmico Zumbi. Wolfman Wilf, um disk jockey perceptivelmente agitado, leu esta mensagem: “Toque ‘Eu matei meus pais (e não foi por acidente)’, do Oedipus Wrecks, até eu ficar de saco cheio ou vou aí arrancar a porra da sua cabeça fora, sua bicha caquética. Felicidades” assinado: Lobo”.

A partir daquela data, Wolfman Wilf não deixou de tocar a música... E, sem dúvida, Lobo não parou de ouvi-la. Imagine o efeito daquela “canção” – com sua letra ilícita e aberrante, sua batida primitiva e instrumentação selvagem –, tocada ininterruptamente durante anos! Alguém pode imaginar os horrores indescritíveis causados por esta música em uma jovem mente que já estava corrompida?

No início da adolescência, Lobo montou sua própria banda: “O Homem e os Vários Vômitos”. A estréia foi no Festival Czarnia 9 Oitavas Chime-haiku. A combinação de microfonias e sobrecargas elétricas resultou na morte dos jurados, dos espectadores de seis fileiras do setor “D” da platéia e do vendedor da barraca de chá de ervas. Os “Vários Vômitos” (felizmente, segundo alguns) foram inesperadamente decapitados no clímax do primeiro refrão.

Correu o boato de que logo após o show Lobo deu entrada num hospital particular, onde ia instalar um microreceptor de rádio ligado diretamente ao lóbulo auditivo de seu cérebro. Não pude obter corroboração definitiva deste fato, pois, naquela mesma noite, a clínica foi incendiada pouco depois e os funcionários foram encontrados degolados.

Pos isso, podemos concluir seguramente que, desde então, Lobo foi constantemente exposto ao ritmo pulsante, aos gritos agudos e à vulgaridade grosseira características do gênero.

Atualmente, alguns dizem que Lobo começou uma vida nova, tornando-se membro remunerado da L.E.G.I.A.O., a força policial interplanetária de Vril Dox II. Para esses pobres todos iludidos, eu respondo: bobagem! Lobo já está muito pervertido para poder voltar atrás!

A verdade sobre essa questão é a seguinte: Vril Dox enfrentou Lobo numa “batalha épica” e, embora tivesse seus poderes temporariamente ampliados a níveis máximos, no curso lógico dos eventos o czarniano ainda seria capaz de derrotá-lo com relativa facilidade.

O modo com Dox venceu tem sido motivo de perplexidade para muitos. Agora, eu posso revelar como tudo aconteceu: logo no começo da luta, a estação de rádio Rock Cósmico Zumbi saiu do ar! As transmissões foram interrompidas devido a uma falha nos geradores, causada por um imenso meteoro. Aquela música insana que por tanto tempo alimentou a selvageria obstinada de Lobo silenciou! A Rock Cósmico Zumbi ficou fora do ar por duas horas. Sem aquele barulho incessante – um primitivo estímulo cacofônico à loucura, demonismo e matança gratuita –, Lobo perdeu sua vantagem. E a luta.

Forçado em nome da honra a obedecer ao vitorioso, Lobo não teve outra escolha senão ingressar na L.E.G.I.A.O., onde suas arbitrariedades são cometidas contra os criminosos (sem dúvida, antigos “companheiros”).

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Capítulo 3: uma entrevista com a morte

Transcrito 531 – Avaliação psicológica da L.E.G.I.A.O.
Assunto: Lobo

Médico examinador: o falecido Dr. J.A. Gnuoy
Cópias: Vril Dox, Lyrissa Mallor

LOBO: ...quem sentou aqui por último? Essa porra tá mais quente que bunda de prostituta delbiana...

DOUTOR: Bem-vindo, Lobo. Este é apenas um procedimento padrão para os arquivos da L.E.G.I.A.O., eu só vou fazer algumas perguntas, ok? Então vamos começar... O que exatamente você não gosta nos outros seres?

LOBO: Tenta advinhar! Ce ta quase lá!

DOUTOR: Insistindo no assunto, pode me dizer por que quando as pessoas o irritam ou, algumas vezes, nem fazem nada, você as mata?

LOBO: E qualé o problema nisso? Eu não mato só por matar! Sem contrato, sem morte... Sacou? Eu sou matador profissional, assassino da realeza e flagelo da galáxia. Minhas habilidades especiais exigem grana alta. Sem pagamento, sem serviço. Mas quando mato alguém eu não sou pago, geralmente acabo com os caras que me deram calote. Isso eu faço de graça. Encare como um tipo de... serviço público.

DOUTOR: Entendo... Mas o que isso tem a ver com seus amigos?

LOBO: Que “amigos”? Essa pergunta é uma pegadinha?

DOUTOR: Hã... Vamos continuar. Você já encontrou um objetivo na vida?

LOBO: Cê ficou louco? Meu negócio é MATAR e ALEIJAR. Que merda!! Eu suei muito para ser o melhor... O Primo Hombre dessa porra de universo! Ninguém faz melhor que eu! NINGUÉM!!!

DOUTOR: Muito bem. Agora me explique uma coisa: como essa imagem machista de “matar todo mundo e mutilar os sobreviventes” se encaixa com os golfinhos espaciais que estão sob sua proteção? Foi comprovado que você é tão gentil e amoroso com eles quanto é selvagem e cruel com qualquer outro ser.

LOBO: Que conversa fiada é essa chefia? Sai fora! Tá querendo me difamar?É ISSO?!

DOUTOR: N-NÃO! Pelo amor de Deus! Eu só estava querendo saber de que forma você convive com estes dois comportamentos tão distintos entre si...

LOBO: Não convivo. Meus “peixes” são gentis e graciosos, a forma de vida mais pura que eu já encontrei até hoje. Os coitadinhos precisam de mim pra tomar conta deles...

DOUTOR: Entendo... E tenho certeza de que você precisa de alguém como eles. Sim... é isso mesmo. A imagem começa a se forma agora... voltando de moto para o lar em algum ponto remoto do Mar dos Sargaços Espaciais cansado e mal-humorado depois de um dia duro de matança, seu amigos lisinhos brincando e dando cambalhotas a sua volta, esperando seu dono para irem passear...

LOBO: ... (som tamborilando os dedos sobre a mesa, impacientemente.)

DOUTOR: Hã... continuando... Você tem a fama bem difundida de ser o czarniano que matou toda a sua raça para ser único...

LOBO: Não me diga... Aquilo funcionou... não funcionou?

DOUTOR: Bem... sim. Mas, para qualquer ser racional, tal ato de genocídio, nessa escala colossal, é inconcebível. Quero dizer, como alguém pode fazer algo tão grotesco, primitivo e bárbaro...?

LOBO: Você é burro, retardado ou o quê? Eu simplesmente faço. É por isso que sou o único e eles não! HAHAHAH!!! Essa foi boa, hein?

DOUTOR: Mudando de assunto... a despeito de sua reputação assassina, você também é conhecido como um homem de palavra, um homem de honra.

LOBO: É isso aí. Eu não digo uma coisa e faço outra. Você faz uma promessa, você cumpre! Você assina um contrato, você honra! Você jura vingança, você vinga! Por mais tempo que isso demore. É como eu sempre digo: pegue uma arma e nunca desista! HAHAHAH!!! “Arma”, sacou!

DOUTOR: Mesmo se a voz da razão disser o contrário?

LOBO: “Voz da razão”?

DOUTOR: Você realmente é um homem de anomalias extremas... Será que aquele vestígio sutil de gentileza que percebi em você se perdeu totalmente? Alguma vez já se sentiu culpado pelos seus crimes hediondos?

LOBO: “Vestígio sutil de gentileza”? “Crimes hediondos”? Que porra é essa? Alguma piada idiota?

DOUTOR: N-não, não... Eu só estava...

LOBO: Seu veado bunda-mole! Vocês, psiquiatras, são todos iguais: um bando de imbecis que ficam babando pelo canto da boca! A gente perde tempo e dinheiro vindo aqui, age com educação... Sim, senhor... Não, senhor... E o que recebe em troca? Saco cheio! Ou como diria o desgraçado do Vril: “Saturação da bolsa escrotal”... CACETE! Eu vim até aqui, sentei numa cadeira pegajosa e... Hmmm... Ahá! Acabei de ter uma idéia pra derrubar essa tua pose de sabe-tudo! Pra falar a verdade, doutor, acho que chegou a minha vez. Vamos ver o que tem dentro da sua cabeça e examinar o cérebro!

DOUTOR: Não... O que você está fazendo? Fique longe de mim! Eu estou lhe avisando... Eu... SOCOR. AAAAARRRGGHHHH!!!

LOBO: Olha só! O que é essa geléia branca cheia de gominhos? Será que – clic.

* Fim da transcrição *

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RELATÓRIO DE AUTÓPSIA DO DR. J.A. GNUOY: A morte do Dr. Gnuoy parece ter sido causada por um grande traumatismo craniano. No entanto, ressaltamos que isso é apenas conjectura de nossa parte, pois fomos incapazes de localizar a cabeça acima mencionada.
Equipe Médica

sábado, 12 de maio de 2007

Capítulo 2: matança!


O que são essas coisas voadoras parecidas com escorpiões de 117 micra de comprimento, que perfuram a carne, causando grandes bolhas negras e um rápido envenenamento sangüíneo por um período prolongado antes de resultar em uma agonizante e desordenada morte?

Os czarnianos também não sabiam.

E, como um dos efeitos colaterais era a quase paralisia total segundos após a infecção, eles não tiveram muitas oportunidades de descobrir. O que conseguiram foi muitos bilhões de pessoas inexplicavelmente doentes ao mesmo tempo. Em um planeta onde as doenças eram desconhecidas e 99,86% dos acidentes totalmente evitados, este não era um assunto engraçado.

Corpos inchados com ínguas negras exalando um odor rançoso de decomposição amontoavam-se nas ruas. Pais, mães e filhos rastejavam em cego desespero, unidos num grito de dor que se estendeu por todo o planeta, demorando cinco longos dias antes de se extinguir... no silencio gélido e doentio da abominável morte.

E enquanto um planeta morria, seu assassino sorria.

Em uma sacada ornada entre as elevadas torres de Czarnia, o satânico Lobo relaxava. Um copo de neurovinho espumante umedecia lábios ressecados por uma obscena expectativa. Ele passava sua outra mão pelos cabelos – um rápido e gracioso movimento que gastou muitos meses aperfeiçoando. No brilho acetinado da parede, ele avistou seu reflexo, riu e suspirou afetadamente com a visão. Ele se achava definitivamente o máximo!

Sim, senhor! Ele veio de uma longa caminhada desde aqueles dias precoces e cambaleantes, quando era um grande negocio cremar todo babaca que cruzasse seu caminho ou quando suas aspirações se resumiam a assassinatos simples e insalubres. Na escola, a violência quase o entediou, mesmo em seus piores extremos. Ele detestava todos que encontrava, e os tratava de acordo. Todo o planeta Czarnia conhecia e temia o seu nome.

Nenhuma solução quanto a existência e Lobo foi encontrada. As súplicas ao seu lado benevolente não surtiram efeito, pois ele próprio declarou desconhecer o que era “piedade”. O uso da ameaça, totalmente estranha aos costumes czarnianos, foi logo considerado, mas logo abandonado quando perceberam que ninguém saberia ou teria coragem para fazê-lo.

E, quanto mais Lobo piorava, mais Lobo gostava...

Até agora, no final de sua adolescência, seu ego monstruosamente inflado deu o passo derradeiro. Empregando uma inteligência que, em diferentes circunstancias, teria feito dele o maior neurocirurgião do Universo de todos os tempos, Lobo pôs mãos à obra na aula de Biologia.

Ele veio com umas coisas voadoras parecidas com escorpiões de 117 micra de comprimento, que perfuram a carne. Se alguma testemunha tivesse sobrevivido, ela nos contaria sobre a risada assustadora que cortou o ar enquanto ele quebrava os desprezíveis frascos da morte. A gargalhada fluiu com o vento e muitas das vítimas poderiam jurar que, mesmo sentindo as picadas dos milhões de insetos em seus corpos, o eco daquela risada profana os amedrontava mais... se alguma testemunha tivesse sobrevivido.

Em sua sacada, Lobo, o Senhor da Morte, ergueu seu copo em um brinde final. Um estranho êxtase percorreu sua espinha. Complexas reações químicas em seu cérebro o levaram a um estado de mística euforia. Por um momento, ele se lembrou de Daline Zaand, seu primeiro amor, de suaves curvas e hálito doce e morno. Um fogo brando percorreu seu sangue. Um gemido baixo irrompeu de suas entranhas, deixando rijo cada músculo de seu corpo.

Matar um planeta era como Daline Zaand... só que bilhões de vezes melhor.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Capítulo 1: uma serpente no Éden

Não muito tempo atrás, em uma galáxia tão incrivelmente remota que, durante toda sua longa história, jamais teve contato com outros sistemas solares, existia a Perfeição. Nós a chamávamos de Czarnia. Terra do coração. Harmonia. Céu. Lar de uma das mais nobres e maravilhosas raças que já afloraram do ventre universal.

Czarnia. Paraíso de paz, amor e felicidade, onde os dias eram longos e as noites doiradas. Um mundo no qual todos os sonhos se realizavam. Não havia guerra, nem fome. A morte existia apenas para aqueles que a escolhiam como uma alternativa de vida eterna. Não havia violência, ou, nem mesmo, um termo para “briga”, “disputa” ou “ódio”, além do que seria traduzível como: “Eu discordo brandamente de você e desejo estabelecer um diálogo visando a uma resolução. Antes, entretanto, vamos compartilhar de um pouco de néctar ou ambrosia enquanto admiramos a forma perfeita de algum esteticamente enlevado trabalho artístico”.

Mas a serpente nasceu no Éden... e o nome do demônio era Lobo.

É dito que a parteira sentiu uma estranha e desconhecida sensação na hora do nascimento. “O diabo!”. Ela gritou. “O diabo encarnado!”. Ninguém sabia do que a mulher estava falando. Aquela mártir anônima recebeu a duvidosa honra de ser a primeira vítima do Lobo. Ela tornou-se a primeira doente mental do planeta em mais de dez milhões de anos, e ninguém jamais soube por que se recusou a reproduzir os quatro dedos que o maléfico Bebe das Trevas arrancou com uma mordida. Os maiores pensadores de Czarnia – as melhores mentes que já existiram – passaram anos analisando o fenômeno Lobo. Foram infinitas teorias: o Gene Anômalo; Possessão Demoníaca; Hipótese do Bode Expiatório, segundo a qual afirmavam que ele era o modo de o Universo balancear a superabundância de coisas boas em Czarnia; a Seita da Incerteza das Coisas de Heideleidle, cujos seguidores insistiam que Lobo “aconteceu” em Czarnia por mero azar, pois ele iria se manifestar de qualquer forma em algum lugar ou algum tempo.

Outros, como a professora de jardim da infância Lubla Blak, não tinham tempo para fantasias. “Lobo era um bastardo perverso”, disse ela em sua entrevista pouco antes de sua morte prematura causada por um misterioso bombardeiro napalm. Lubla acreditava que, por alguma peculiaridade, o poder mental pleno dos czarnianos canalizados para a intensificação da vida foi revertido no surgimento de Lobo. Toda sua vontade, sua energia, sua habilidade era direcionada no que pode ser chamado de destruição generalizada.

Com toda certeza, ele abriu um atalho através da intelectualidade gloriosa do sistema educacional czarniano. Ele nunca estudou e, já que podia surrar um colega (ou um professor), logo passou a “administrar” sua escola. Mesmo com a idade de 5 anos, o diabólico garoto era incrivelmente feroz. Esta característica foi testemunhada pelo seu primeiro e único diretor. Egon N’g, que teve a garganta rasgada durante um acesso de raiva do rebelde estudante. Quando os vizinhos o encontraram, uma mensagem escrita com sangue no chão: “Minha fé na bondade natural da ordem das Coisas foi severamente abalada, se não totalmente destruída. Eu me uno ao universal. Adeus, Paraíso! P.S.: para o seu bem, criem os conceitos de Punição, Polícia e Prisão”.

Sim, para tal recado foi preciso muito sangue. E, Consequentemente, o Sr. N’g levou um bom tempo morrendo. Houve calorosas discussões. Enquanto isso, nas salas de aula de Czarnia, sangue derramado, corpos mutilados e ossos quebrados marcavam a evolução da Serpente. Uma era havia terminado. Na longínqua galáxia um tambor abafado começou a ser batido, anunciando a passagem da perfeição.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Caçador de mim

Milton Nascimento
Composição: Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Tempo

Não há forma de viajar se não for com tempo.
De que outra maneira posso sentir o pulsar de alguém,
de alguma coisa que seja?

É preciso tempo para conseguir viver o tempo dos outros.

Existe o tempo de estar só e o de estar acompanhado.
Mas, não é possível viajar se não for com tempo.
Viajar acompanhado traz o desafio de equilibrar o meu tempo
ao de quem me acompanha
e ainda o de tentar viver o tempo de quem visito,
do que visito.

Sem tempo posso correr atrás do prejuízo?
Sem tempo posso fazer muita coisa,
mas não viajo,
não sinto.

Com que compasso?
Preciso do meu tempo.
Sozinho, sozinhos.

Sozinho deixo-me perder.
Sozinhos deixamos de ter tempo próprio
e passamos a ter tempo para tudo.
O tempo deixa de ser meu;
passa a ser nosso.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Como um tom

Como um tom, que o espelho mostra,
soa em novembro um canto de
melro
ou como um arrepio nos pêlos,
como a comida preferida.

Mas numa manhã em fevereiro
Já se pode ousar, como um
papa-capim,
a lembrar-se de algo que durante
o ano não se pôde dizer abertamente.


Muzot, meados de fevereiro de 1924

(Por: Rainer Maria Rilke: primavera.)

terça-feira, 13 de março de 2007

Wie ein Ton

Wie ein Ton, der in Spiegel schaut,
klang im November ein Amsellaut
oder als rührte ans eigene Haar
einer, weil's einmal geliebkost war.

Aber am Morgen im Februar
darf es ein Fink schon wagen
etwas was kein Erinnern war
offen ins Jahr zu sagen.


Muzot, Mitte Februar 1924

(Aus: Rainer Maria Rilke: Frühling.)

sábado, 10 de março de 2007

Ruby tuesday

Rolling Stones



She would never say where she came from
Yesterday don't matter if it's gone
While the sun is bright
Or in the darkest night
No one knows
She comes and goes

Goodbye, Ruby Tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I'm gonna miss you...

Don't question why she needs to be so free
She'll tell you it's the only way to be
She just can't be chained
To a life where nothing's gained
And nothing's lost
At such a cost

There's no time to lose, I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams
And you will lose your mind.
Ain't life unkind?

Goodbye, Ruby Tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I'm gonna miss you...

quinta-feira, 8 de março de 2007

A uma mulher

Vinícius de Moraes

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.


Rio de Janeiro, 1933

in O caminho para a distância
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"

segunda-feira, 5 de março de 2007

Confidências

Querida amiga,

Conforme prometi, estou enviando um e-mail para contar as novidades da minha primeira semana após ser transferida pela firma para o Rio de Janeiro. Terminei hoje de arrumar as coisas no meu novo apartamento. Ficou uma gracinha, mas estou exausta. São dez da noite e já estou pregada. Amanhã te passo outro e-mail para dizer como foi o dia.

Segunda-Feira:
Cheguei na firma e já adorei. Entrei no elevador quase no mesmo instante que o homem mais lindo desse planeta. Ele é loiro, tem olhos verdes e o corpo musculoso parece querer arrebentar o terno. Lindooooo! Estou apaixonada. Olhei disfarçadamente a hora no meu relógio de pulso e fiz uma promessa de estar parada defronte ao elevador todos os dias a essa mesma hora. Ele desceu no andar da engenharia. Conheci o pessoal do setor, todos foram atenciosos comigo. Até o meu chefe foi super delicado. Estou maravilhada com essa cidade. Cheguei em casa e comi comida enlatada. Amanhã vou a um mercado comprar alguma coisa.

Terça-Feira:
Amiga! Precisava contar. Sabe aquele homem de quem falei? Ele olhou para mim e sorriu quando entramos no elevador. Fiquei sem ação e baixei a cabeça. Como sou burra! Passei o dia no trabalho pensando que preciso fazer um regime. Me olhei no espelho hoje de manhã e estou com uma barriguinha indiscreta. Fui no mercado e só comprei coisinhas leves: biscoitos, legumes e chás. Resolvido! Estou de dieta.

Quarta-Feira:
Acordei com dor-de-cabeça. Acho que foi a folha de alface ou o biscoito do jantar... Preciso manter-me firme na dieta. Quero emagrecer dois quilos até o fim-de-semana. Ah! O nome dele é Marcelo. Ouvi um amigo dele falando com ele no elevador. E ainda tem mais: ele desmanchou o noivado há dois meses e está sozinho. Consegui sorrir para ele quando entrou no elevador e me cumprimentou. Estou progredindo, né? Como faço para me insinuar sem parecer vulgar? Comprei um vestido dois números menor que o meu. Será a minha meta.

Quinta-Feira:
O Marcelo me cumprimentou ao entrar no elevador. Seu sorriso iluminou tudo! Ele me perguntou se eu era a arquiteta que viera transferida de Brasília e eu só fiz: "U-hum"... Ele me perguntou se eu estava gostando do Rio e eu disse: "U-hum". Aí ele perguntou se eu já havia estado antes aqui e eu disse: "U-hum". Então ele perguntou se eu só sabia falar "U-hum" e eu respondi: "Ã-hã". Será que fui muito evasiva? Será que eu deveria ter falado um pouco mais? Ai, amiga! Estou tão apaixonada! Estou resolvida! Amanhã vou perguntar se ele não gostaria de me mostrar o Rio de Janeiro no final de semana. Quanto ao resto, bem... ando com muita enxaqueca. Acho que vou quebrar meu regime hoje. Estou fazendo uma sopa de legumes. Espero que não me engorde demais.

Sexta-Feira:
Amiga! Estou arruinada! Ontem à noite não resisti e me empanturrei. Coloquei bastante batata-doce na sopa, além de couve, repolho e beterraba. Menina, saí de casa que parecia um caminhão de lixo. Como eu peidava! (nossa! Você não imagina a minha vergonha de contar isto, mas se eu não desabafar, vou me jogar pela janela!). No metrô, durante o trajeto para o trabalho, bastava um solavanco para eu soltar um futum que nem eu mesma suportava. Teve um momento em que alguém dentro do trem gritou: "Aí! Peidar até pode, mas jogar merda em pó dentro do vagão é muita sacanagem!". Uma senhora gorda foi responsabilizada. Todo mundo olhava para ela, tadinha. Ela ficou vermelha, ficou amarela, e eu aproveitava cada mudança de cor para soltar outro. O meu maior medo era prender e sair um barulhento. Eu estava morta de vergonha. Desci na estação e parei atrás de uma moça com um bebê no colo, enquanto aguardava minha vez de sair pela roleta. Aproveitei e soltei mais um. O senhor que estava na frente da mulher com o bebê virou-se para ela e disse: "Dona! É melhor a senhora jogar esse bebê fora porque ele está estragado!". Na entrada do prédio onde trabalho tem uma senhora que vende bolinhos, café, queijo, essas coisas de camelô. Pois eu ia passando e um freguês começou a cheirar um pastel, justo na hora em que o futum se espalhou. O sujeito jogou o pastel no lixo e reclamou: "Pó, dona Maria! Esse pastel tá bichado!". Entrei no prédio resolvida a subir os dezesseis degraus pela escada. Meu azar foi que o Marcelo ficou segurando a porta, esperando que eu entrasse. Como não me decidia, ele me puxou pelo braço e apertou o botão do meu andar. Já no terceiro andar ficamos sozinhos. Cheguei a me sentir aliviada, pois assim a viagem terminaria mais rápido. Pensei rápido demais. O elevador deu um solavanco e as luzes se apagaram. Quase instantaneamente a iluminação de emergência acendeu. Marcelo sorriu (ai, aquele sorriso...) e disse que era a bruxa da sexta-feira. Era assim mesmo, logo a luz voltaria, não precisava se preocupar. Mal sabia ele que eu estava mesmo preocupada. Amiga, juro que tentei prender. Mas antes que saísse com estrondo, deixei escapar. Abaixei e fiquei respirando rápido, tentando aspirar o máximo possível, como se estivesse me sentindo mal, com falta de ar. Já se imaginou numa situação dessas? Peidar e ficar tentando aspirar o peido para que o homem mais lindo do mundo não perceba que você peidou? Ele ficou muito preocupado comigo e, se percebeu o mau cheiro, não o demonstrou. Quando achei que a catinga havia passado, voltei a respirar normal. Disse para ele que eu era claustrófoba. Mal ele me ajudou a levantar, eu não consegui prender o segundo, que saiu ainda pior que o anterior. O coitado dessa vez ficou meio azulado, mas ainda não disse nada. Abaixei novamente e fiquei respirando rápido de novo, como uma mulher em estado de parto. Dessa vez Marcelo ficou afastado, no canto mais distante de mim no elevador. Na ânsia de disfarçar, fiquei olhando para a sola dos meus sapatos, como se estivesse buscando a origem daquele fedor horroroso. Ele ficou lá, no canto, impávido. Nem bem o cheiro se esvaiu e veio outro. Ele se desesperou e começou a apertar a campainha de emergência. Coitado! Ele esmurrou a porta, gritou, esperneou, e eu lá, na respiração cachorrinho. Quando a catinga dissipou, ele se acalmou. As lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos. Ele me viu chorando, enxugou meus olhos e disse: "Meus olhos também estão ardendo..." Eu juro que pensei que ele fosse dizer algo bonito. Aquilo me magoou profundamente. Pensei: "Ah, é, filho da puta? Então acabou a respiração cachorrinho...". Depois disso, no primeiro ele cobriu o rosto com o paletó. No segundo, enrolou a cabeça. No terceiro, prendeu a respiração, no quarto, ele ficou roxo. No quinto, me sacudiu pelos braços e berrou: "Mulher! Pára de se cagar!". Depois disso ele só chorava. Chorou como um bebê até sermos resgatados, quatro horas depois. Entrei no escritório e pedi minha transferência para outro lugar, de preferência outro País.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Falena (Mariposa)

Iago



Semplice, inspiegabile, inscindibile.
Tra alba e tramonto, tra inizio e fine.

L'amore è un bruco che ritmicamente
si fa largo fra le consuetudini
e le rende istinti.

La metamorfosi è la via per
ingannare le divinità.

Trasformazione di una volontà ad esistere.
E come l'acqua, diventa molte cose.

Ma la sua essenza più intima è l'empatia.
La crisalide è vuota, la notte sostiene
il suo volo. Sulle sue ali è scritta
la storia di un'emozione destinata a perire.

La fine ed il tempo cercano un punto
d'incontro per obbedire al destino.

Eppure lei sa come volare lontano dal
comprensibile. Battiti frenetici, percezioni.
E' per questo che lei è...Falena.


Mariposa

Simples, inexplicável, Inseparável,
Entre o amanhecer e o alvorecer,
Começo e fim.

O amor é uma lagarta que ritmicamente
se faz ao largo dos costumes
e rende instintos.

A metamorfose é o caminho
para ganhar a divindade.

Transformação de uma vontade de existir.
E como a água, tornar-se muitas coisas.

Mas a sua essência ultima é a empatia.
A crisálida está vazia, a noite sustenta
seu vôo. Sobre suas asas é escrita
a história de uma emoção destinada a perecer.

O fim e o tempo procuram um ponto
de encontro para obedecer o destino.

Apesar disso, ela sabe como voar
para longe do compreensível.
Batidos frenéticos, percepção.
E é por isso que ela é uma mariposa.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Mini conto kafkiano

Quase nunca Deus, ou quem quer que tenha forjado esse mundo, escuta nossas preces. Ou, se o faz, faz no momento errado, quando o desejo não é mais tão forte ou quando não é mais possível se alegrar com ele. Naquela noite, aproximei-me da igreja com suspeita e, como sempre, apresentei meus pedidos a Deus. Há tanto tempo que pedia, que eu não sabia mais o que oferecer em troca. Voltei para casa e rezei até o amanhecer, e fiz isso com fervor. Eu queria uma coisa, apenas uma coisa e Ele sabia o que era... Quando ela chegou, fiquei mais assustado do que contente. Há tanto tempo a havia pedido ao meu Deus, e há tanto tempo ela me havia sido negado... No entanto, agora pude ver seu rosto. Talvez seja aquilo que dizem no ditado sobre Deus escrever certo por linhas tortas ou sobre Ele saber o que faz... Por uma vida inteira acreditei merecer o Paraíso, mas o monstro que recebi em atendimento às minhas súplicas não pode ter vindo de outro lugar senão do Inferno.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Paura

São quase duas da manhã e não tenho sono. Um pensamento recorrente explode em meu cérebro; preciso colocá-lo para fora, mas não sei como. Quero externá-lo, mas acho que já o esqueci. Não sei explicar... é como se a cabeça fosse mais pesada do que o que o pescoço pode agüentar. Como uma novidade que esqueci de contar e que talvez, por isso, tenha perdido seu efeito. Minha mente me confunde e não consigo encontrar o pensamento que me aflige. Mas é só parar de pensar e ele aparece.

Essa não é a primeira vez que isso acontece e isso me deixa bastante nervoso. Quando tento me concentrar, as palavras me abandonam. Será que é apenas um sonho ou algo que aconteceu há muito tempo? Será que é aquilo que Freud chama de lembranças encobridoras? Mas, nesse caso, eu deveria ter, ao menos, algum pensamento que me fizesse esquecer aquilo que tento lembrar.

Talvez não consiga colocá-lo para fora porque tenho medo. Tenho medo dos meus pensamentos, de minhas idéias. Medo daquilo que penso e que talvez não seja justo. Medo do que creio ter razão, pois talvez o que eu creia não seja tão racional assim. Medo do que escuto e do que digo por que não tenho certeza se o que digo é o que realmente penso. Tenho medo dos meus pensamentos por que eles não escondem quem eu esqueci que sou.