quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A maravilhosa cozinha existencialista

No último fim-de-semana, a Equipe PROTONS foi passar o domingo descansando numa velha casa abandonada desde o século XIX, que fica em algum lugar esquecido na estrada w3 entre as quadras 710 e 715. Lá, nós tivemos a sorte de descobrir diários perdidos de existencialistas franceses do século XIX. Nesses livros estão curiosas associações entre dor e sabor, que perturbará todas as definições metafísicas e conceitos holísticos dos que achavam que uma macarronada não tem nada de existencialista. Para quem se desespera com a questão de quem veio antes, o ovo ou a galinha, haverá de concordar que, pelo menos, num frango assado com farofa de ovos, os dois vão ao mesmo tempo bucho a dentro...
por Bruno Cavalcanti


Diário de Vitor Sodré, existencialista francês, 1891:

15 de janeiro: "Aqui estou eu, preso em mim mesmo, vendo da janela do meu quarto imundo o amontoado de carros indo e vindo, perdidos em sua própria insignificância... Olho para o relógio e concluo ser a hora do almoço... Qual o significado desse momento, tão definitivo na vida do homem comum?... Minha alma agoniza, eu preciso descobrir... Prepararei uma sopa de batatas e chegarei a algum lugar..."

"Coloquei quantas batatas eu quis numa panela. Coloquei água, mas só a quantidade necessária para que as batatas ficassem quase submersas, apenas com uma pequena parte fora d'água, para que se sintam sufocadas, angustiadas..."

"Levei a panela para o lugar mais frio da casa. Coloquei uma cadeira de frente para ela e fique sentado para sempre... Pensei sobre o quanto estou faminto, mas que a escolha é minha de continuar ou não assim. Quando anoitecer, não acenderei as luzes..."

16 de janeiro: (notas de rodapé) "...Como poderei saber ao certo se a batata escolheu ou não ser comida por mim? Isso me deixa mais e mais frustrado..."

"...Sei que aquela panela não representa por si só todas as angústias do homem desamparado num mundo sem Deus. Mas como posso demonstrar isso apenas com carboidratos?..."

17 de janeiro: "Acordei hoje decidido a tirar interpretações mais radicais sobre a sopa, numa tentativa de, talvez, expressar o vácuo existencial entre a fome e a dor. Estou bastante encorajado com os resultados, mas minha jornada ainda é longa..."

"Verduras são vitaminas, que representam o prazer do homem, o supérfluo, a negação. Pode ser que a mistura entre alface, coentro e repolho com a batata, resulte no suicídio da sopa... Mas de qualquer forma, o risco é meu..."

31 de janeiro: "Me tranquei no banheiro por quatorze dias por arrependimento, me negando a encarar qualquer um..."

9 de fevereiro: "...Venho colocando mais e mais batatas na sopa, dia após dia, como soldados marchando para o mar revolto e imprevisível. Melancólico, olho para as batatas, mas elas não me olham de volta... Preciso prová-las, mas não consigo! Apago as luzes, mas não adianta!... Preciso de mais força de vontade... Leio algumas passagens de Kierkegaard e estou finalmente pronto! Droga, tentei criar uma sopa que expressasse o sentido da existência, mas em vez disso, tem gosto de batata!... O que Albert Camus faria? Talvez um pouco de cebola..."

"É a hora do julgamento dos valores da sopa. Pus ela para cozinhar... As batatas pulam angustiadas enquanto a água ferve. Chego à conclusão de que a batata, mesmo livre, é vitimada pelo ambiente e sofre por isso. Estou muito feliz... Estou tão feliz que estou quase surtando!!!... Vou voltar pro banheiro..."

13 de fevereiro: "...Faz quatro dias que estou no banheiro, e já caíram 8.596 gotas de água na pia. Tudo é mesmo tão efêmero!... Ao sair do banheiro, percebo que o fogo do fogão (no caso, o fogão é a existência e o fogo é a essência) se extinguiu. A água evaporou da panela, embora, de gota em gota, continue existindo da torneira até a pia. Quão subjetivo é tudo isso! Estou tonto, acho que vou desmaiar..."

"Preciso colocar mais sal para poder chegar à definição perfeita do sentimento do vocábulo 'sopa'. O que ele representa? O quanto ele vale? Como ele se sente? Diabos, o que importa, já sei que a sopa vai viver e morrer sozinha!..."

14 de fevereiro: "As coisas não aconteceram como eu esperava! A sopa está cheirando mal, talvez tenha estragado... Afinal, faz um mês e meio que a venho preparando... Enfim, que seja! Não é este mesmo o fim de todas as coisas?..."

Fonte: http://www.protons.com.br/megazine/Xreceitas-existen.html

sábado, 20 de outubro de 2007

Existencialismo II

O homem é o único animal que se define a si próprio através do ato de viver. Em outras palavras, o homem (ou a mulher) primeiro existe, depois o indivíduo usa o tempo de sua vida para mudar a sua essência. O sentido da vida só é dado com a vivência. A busca do sentido da vida no existencialismo é a busca por si próprio.

Diferente do que muitos pensam, o existencialismo não é um tema sombrio ou deprimente. O existencialismo é sobre a vida. Mas não a vida como esta é tratada por Nietzsche ou Schopenhauer, que apesar de terem focalizado parte de suas reflexões para questões tipicamente existencialistas, o fizeram sem abandonar suas respectivas linhas de pensamento, ou seja, suas reflexões direcionavam-se para a vida e não para existência em si. A questão primordial é: em que lugar de sua filosofia o filósofo trata da existência? Ou ainda, ela tem prioridade?

Os filósofos da existência empenham-se em pensar o individuo real e contraditório a partir de sua existência cotidiana sem qualquer relevo especial. Some-se a isso fato de as filosofias da existência serem anti-naturalistas: existir é a condição/situação na qual nos encontramos desde sempre, não é uma natureza. O humano é, portanto, não-definível.

Nietzsche criticou a moral socrática, mas ao fazer isso, não considerou a singularidade de Sócrates como indivíduo, como Kierkegaard, por exemplo, o fez. Nietzsche considerou Sócrates e Cristo como figuras históricas (seus conceitos, o que representam) e não como singulares singularíssimos. O ponto é que tanto Schopenhauer como Nietzsche tratavam o Ser e seus estados de maneira totalizadora e não singular. As filosofias não existenciais podem dar respostas objetivas para o mundo, o existencialismo, não. Ele coloca o acento na subjetividade, no ponto de vista interior.

As filosofias existencialistas consideram o homem como um ser finito, continuamente confrontado com situações problemáticas e absurdas. O que interessa ao existencialismo é o homem em sua singularidade. No centro do pensamento existencialista encontra-se o homem singular e finito que faz escolhas e que lida com a situação de estar jogado no mundo.

domingo, 7 de outubro de 2007

Lösch mir die Augen aus

Rainer Maria Rilke

Lösch mir die Augen aus: ich kann dich sehen.
Wirf mir die Ohren zu: ich kann dich hören.
Und ohne Füße kann ich zu dir gehen.
Und ohne Mund noch kann ich dich beschwören.
Brich mir die Arme ab, ich fasse dich mit meinem Herzen,
Wie mit einer Hand.
Halt mir das Herz zu, und mein Hirn wir schlagen.
Und wirst du in mein Hirn den Brand,
so werd' ich dich auf meinem Blute tragen.

Apaga-me os olhos

Apaga-me os olhos: eu poderei te ver.
Tapa-me os ouvidos: eu poderei te ouvir.
E sem pés poderei até a ti chegar.
E sem boca ainda poderei te invocar.
Rompa-me os braços, eu te abraçarei com meu coração,
assim como com uma mão.
Pára meu coração, e meu cérebro pulsará.
E se tu incendeias meu cérebro,
levar-te-ei em meu sangue.

sábado, 6 de outubro de 2007

Apesar de tudo

É preciso tentar,
apesar das pessoas,
apesar das escolhas,

apesar dos erros,
apesar do cansaço,
apesar da sorte,
apesar da falta de sorte.

É preciso viver,

apesar das pessoas,
apesar da seca,
apesar do semestre,
apesar dos impostos,
apesar da morte,
apesar da vida.

É preciso amar,
apesar do egoísmo,
apesar da distância,
apesar do medo,
apesar do ódio,
apesar das pessoas,
principalmente das pessoas,
principalmente as pessoas.