quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Não estou lá


Tantas faces diversas. Tantas fases diversas. Tantos modos complementares de contar a mesma personalidade artística sem cair na hagiografia, mas também sem perder aquele aspecto de espiada pelo buraco da fechadura, pela qual se podem ver segredos inconfessáveis. Uma teia de tramas coerente e plena de citações nem sempre fáceis de serem decifradas. Todas essas características podem ser aplicadas tanto ao filme “Não estou lá” (I’m not there, EUA, 2007), de Todd Haynes, como ao menestrel Bob Dylan.

O título o filme já dá uma idéia do paradoxo: Bob Dylan não está no filme baseado em... Bob Dylan. Trata-se da tentativa de representar numa experiência emotiva e sensorial a sua trajetória na vida, seus humores e suas canções. Não é sem motivo que no filme há seis personagens a encarná-lo nas diversas fases de sua existência, cada um com um nome diferente, a compor uma espécie de biografia anômala e coral que reflete a alma controversa de um homem inquieto e fragmentado.

Cada avanço ou retrocesso no tempo da narrativa adota um estilo de acordo com as fases/faces de Dylan: multicolorido e esculpido quando o astro egoísta se compraz do dinheiro e do sucesso (e ignora a mulher); psicodélico e burlesco nos momentos de sua imersão na Londres beatlemaníaca; ou mesmo surreal no segmento em que Richard Gere se traveste de Billy the Kid. Embora haja um inevitável envolvimento do expectador, alguns elementos fazem com que o filme, de forma semelhante com o que acontece com a música de Dylan, com que o filme se distancie de um entretenimento com o qual seja fácil a identificação.

Bob Dylan percebeu o quanto era necessário uma evolução artística para ele e soube que não poderia se limitar por aquilo que seus fãs aguardavam ou pediam. E por não ter se comprometido com qualquer filosofia estética específica, tanto por seus fãs ou por seus críticos, tornou-se livre para fazer o que quer que desejasse como artista.

Mais do que tentar apresentar quem foi Bob Dylan, a preocupação maior de Haynes, o diretor, parece ser a de apresentar a recusa de Dylan em se conformar a um padrão – seja a uma única identidade, seja a um modelo pré-estabelecido de gênero musical. O filme, tão enigmático como aquele que o inspirou, parece não se ater a qualquer verdade real ou imaginária, mas ao invés prefere explorar o modo como projetamos nossa própria expectativa sobre aqueles que se colocam diante da opinião pública.

Ao invés de proporcionar apenas uma porção limitada do assunto, instruindo o expectador como prestar atenção e tirar conclusões sobre o que eles acreditam ser o significado de tudo, tanto o filme de Haynes como a obra de Dylan permitem e deixam com que o expectador (ou o ouvinte) decida aquilo que é importante e o que não é.

O andamento irregular, as transições desordenadas, as sobreposições dentro da mesma seqüência, as inserções surrealistas, o simbolismo por trás das críticas e mesmo a trilha sonora fora de ordem cronológica, transportam para o cinema o lirismo, a complexidade, a fragmentação, os saltos lógicos e acima de tudo atestam a relevância de conter nos créditos a informação “letras e músicas de Bob Dylan”.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Radiohead, lista dos 5 mais

The Bends, 1995

Se "Pablo Honey" é considerado por alguns uma estréia meio "verde" e indecisa, com apenas uma canção que justifica a aquisição do álbum ("Creep"), "The Bends" marca a virada artística decisiva do grupo e, em particular, de seu instável líder, Thom Yorke. Com canções contemporaneamente evocativas que traduzem perfeitamente a temática do álbum, o segundo trabalho do Radiohead impressiona por suas unidade e qualidade sonora. O som tornou-se muito mais pessoal e facilmente reconhecível, com a extraordinária mistura das três guitarras de O'Brien, Yorke e Jonny Greenwood. Um ótimo exemplo desse novo e invejável rigor estilístico está na fantástica "Fake plastic trees", em que Thom & Cia observam com desgosto as muitas anomalias de uma sociedade supostamente avançada e direcionam sua feroz crítica ao sistema. A elegíaca "Nice dream" e a faixa que empresta nome ao título do disco são denúncias contra o estilo de vida artificial e sujeito aos ditames da moda. Um disco para quem quer ouvir e pensar.

O.K. Computer, 1997

Após três longos anos de espera desde o fantástico "The Bends", a banda retorna com um álbum empolgante e definitivo; uma confirmação extraordinária da genialidade do líder Yorke e inquietante baluarte para os futuros trabalhos do grupo, que a partir de então se torna proprietário de um estilo único. Na verdade, talvez a única pequena imperfeição dessa indiscutível obra de arte é a sua uniformidade, um bloco de melancolia desesperada que arrasta o ouvinte para um interminável vórtice no qual é "masoquísticamente" agradável se perder. "OK computer" é um disco poderosamente original, capaz de misturar elementos de rock progressivo (como o do Pink Floyd) e música eletrônica e experimental (como a do Velvet Underground) e ainda assim obter uma mistura inédita e irresistível, o que pode ser conferido nas já épicas "Paranoid android", "Karma police" e "No surprises". Um manifesto da perplexidade e estranhamento do humano diante da modernidade cada vez mais intrusiva e reificante (não por acaso uma das canções do disco – "Fitler happier" – teoriza como seria uma música interpretada por um computador, totalmente privada de emoções, de sentimentos...). Trata-se, desde o início, de um dos maiores, senão o maior, testemunho artístico do pôr-do-sol (metafórico ou não) da virada do milênio.

Kid A, 2000

Para o Radiohead parece haver uma impossibilidade de ser normal. Após muita espera, várias revisões e contínuos ajustes em estúdio e pesquisa com sons, eis que surge finalmente a criatura: "Kid A". O trabalho é formado quase completamente de sons sombrios, tétricos, indolentes e mesmo aqueles que normalmente são definíveis como canções soam como projetos destinados a assumir outras formas. A primeira audição é angustiante: as linhas clássicas melódicas são praticamente ausentes ou aparecem aqui e ali (como, por exemplo, na faixa de abertura "Everything in its right place" ou na melancólica e linda "How to disappear completely"). Outras vezes, tem-se a impressão de que existe uma tentativa de obter linearidade ("In limbo"), mas, que ela vem expressamente alheia à vontade do grupo, o qual parece disposto a abolir o refrão a todo custo. Ousado e sem precedentes, "Kid A" deixa uma sensação de escassez e secura quase visível e tocável, que pouquíssimos teriam coragem de colocar em cena após um sucesso mundial como "O.K. Computer". "Kid A" talvez seja como uma criança, que nasce sem passado e raízes num cenário de tragédia iminente (quem sabe, talvez a tragédia da modernidade).

Hail To The Thief, 2003

O Radiohead representa, na minha opinião, a encarnação de um sentimento de surpresa e estranhamento; eles são capazes de, a cada novo trabalho, trilhar caminhos diferentes como poucos grupos tiveram coragem de fazer em toda a história da música; capazes de se manter acima de modismos e de dominar com um olhar lúcido e claro a paisagem circundante. A expectativa, na época de lançamento, era de que esse disco sinalizasse um retorno às atmosferas etéreas e rarefeitas de "O.K. Computer", ainda mais após a corajosa publicação dos álbuns gêmeos "Kid A"/"Amnesiac". No entanto, quem esperou por uma reiteração de um discurso prévio ou na repetição de uma fórmula, não encontrou mais que insatisfação. O elemento eletrônico ainda está presente, mas de uma forma muito distinta do dance intelectual de "Kid A". Aqui esse elemento é utilizado na construção de temas quebrados, como na conturbante "Backdrifts", rica em reverberação e sons cósmicos (que remetem, de certa forma, ao som do Kraftwerk) e contornada por ruídos ao fundo que criam de tempo em tempo uma atmosfera fantasmagórica: um conjunto de sinos e teclados que cobrem a canção como um manto. Ainda que a banda não confirme correlação direta, o título do álbum vem de uma frase que acompanhou sarcasticamente a ascensão ao papel de presidente dos EUA de George W. Bush, em 2000, quando ele foi acusado pelos democratas e pela esquerda americana de fraude eleitoral. Essa insatisfação diante desse momento pode ser sentida na faixa de abertura, "2+2=5", em que o descompasso se faz presente já na introdução com uma batida urgente que não se encaixa com o doce dedilhado da guitarra e que em determinado momento se torna uma corrida raivosa e cadenciada pelo canto nervoso de Yorke, num rock quase punk que descarta qualquer hipótese de rima ou refrão. "Hail to the thief" é um álbum excelente, com uma unidade sonora impressionante (embora a sensação rítmica às vezes soe chocante) e constitui a demonstração de uma ética musical que fez da experimentação sua linguagem única: capazes de passar, em dez anos, do pop de "Pablo Honey" à pscodelia de "O.K. Computer" até a definição de um estilo verdadeiro e único. "Hail to the Thief" é mais acessível do que "Kid A", mas não dá para apreciá-lo numa única audição; trata-se de um álbum para ser estudado, entendido, analisado e vivido em todas as suas múltiplas facetas.

In Rainbows, 2007

Pelo tanto que já se falou deste disco desde que foi lançado – palavras ditas e escritas, reais, a respeito de um projeto baseado na virtualidade; afinal este é o primeiro álbum de um grupo importante comercializado inteiramente via Internet – que a discussão sobre o "como" tornou obscuro o debate sobre "o quê", sobre a qualidade intrínseca da música. Agora que a poeira parece ter assentado e após o disco ter sido lançado na forma mais tradicional, é possível analisar a questão musical. Como já se tornou rotina no que diz respeito ao Radiohead, a música continua de altíssima qualidade. Apesar de sempre haver aquela inevitável comparação com os discos anteriores, pode-se dizer que os músicos retornam para mais um trabalho em que demonstram o porquê de formarem uma das bandas mais influentes da música atual. Em todas as dez faixas do disco há um senso de urgência de concretização, de um rock tanto pulsante quanto intelectual, que agrada e impulsiona. Todas as canções se caracterizam pela pesquisa experimental, mas sempre com uma jovialidade que se torna dominante em faixas como "Bodysnatchers", ou insinuante como o toque de harpas em "Weird fishes (Arpeggi!)", ou ainda com a cadência sedutora de "All I need". Os sons são sombrios mas límpidos, a voz é quente, privada daquela espécie de tensão presente, por exemplo, em "Amnesiac". E o melhor de tudo, são canções "rodáveis"/"executáveis", porque já foram pensadas para execução ao vivo, e não como matéria de laboratório aberta a infinitas experimentações. Dessa forma, trata-se de um álbum concreto que, no início, foi vendido de forma imaterial; mais uma bela contradição do Radiohead.