quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Não estou lá


Tantas faces diversas. Tantas fases diversas. Tantos modos complementares de contar a mesma personalidade artística sem cair na hagiografia, mas também sem perder aquele aspecto de espiada pelo buraco da fechadura, pela qual se podem ver segredos inconfessáveis. Uma teia de tramas coerente e plena de citações nem sempre fáceis de serem decifradas. Todas essas características podem ser aplicadas tanto ao filme “Não estou lá” (I’m not there, EUA, 2007), de Todd Haynes, como ao menestrel Bob Dylan.

O título o filme já dá uma idéia do paradoxo: Bob Dylan não está no filme baseado em... Bob Dylan. Trata-se da tentativa de representar numa experiência emotiva e sensorial a sua trajetória na vida, seus humores e suas canções. Não é sem motivo que no filme há seis personagens a encarná-lo nas diversas fases de sua existência, cada um com um nome diferente, a compor uma espécie de biografia anômala e coral que reflete a alma controversa de um homem inquieto e fragmentado.

Cada avanço ou retrocesso no tempo da narrativa adota um estilo de acordo com as fases/faces de Dylan: multicolorido e esculpido quando o astro egoísta se compraz do dinheiro e do sucesso (e ignora a mulher); psicodélico e burlesco nos momentos de sua imersão na Londres beatlemaníaca; ou mesmo surreal no segmento em que Richard Gere se traveste de Billy the Kid. Embora haja um inevitável envolvimento do expectador, alguns elementos fazem com que o filme, de forma semelhante com o que acontece com a música de Dylan, com que o filme se distancie de um entretenimento com o qual seja fácil a identificação.

Bob Dylan percebeu o quanto era necessário uma evolução artística para ele e soube que não poderia se limitar por aquilo que seus fãs aguardavam ou pediam. E por não ter se comprometido com qualquer filosofia estética específica, tanto por seus fãs ou por seus críticos, tornou-se livre para fazer o que quer que desejasse como artista.

Mais do que tentar apresentar quem foi Bob Dylan, a preocupação maior de Haynes, o diretor, parece ser a de apresentar a recusa de Dylan em se conformar a um padrão – seja a uma única identidade, seja a um modelo pré-estabelecido de gênero musical. O filme, tão enigmático como aquele que o inspirou, parece não se ater a qualquer verdade real ou imaginária, mas ao invés prefere explorar o modo como projetamos nossa própria expectativa sobre aqueles que se colocam diante da opinião pública.

Ao invés de proporcionar apenas uma porção limitada do assunto, instruindo o expectador como prestar atenção e tirar conclusões sobre o que eles acreditam ser o significado de tudo, tanto o filme de Haynes como a obra de Dylan permitem e deixam com que o expectador (ou o ouvinte) decida aquilo que é importante e o que não é.

O andamento irregular, as transições desordenadas, as sobreposições dentro da mesma seqüência, as inserções surrealistas, o simbolismo por trás das críticas e mesmo a trilha sonora fora de ordem cronológica, transportam para o cinema o lirismo, a complexidade, a fragmentação, os saltos lógicos e acima de tudo atestam a relevância de conter nos créditos a informação “letras e músicas de Bob Dylan”.